01 Dez 2019 | domtotal.com

Mostra o mau, esconde o bom

Bolsonaro é presidente, mas não é o governo

Bolsonaro preferiu povoar o noticiário com uma atitude autoritária e de legalidade discutível
Bolsonaro preferiu povoar o noticiário com uma atitude autoritária e de legalidade discutível (Marcos Corrêa/PR)

Por Carlos Brickmann

Numa escorregada memorável, o então chanceler Rubens Ricúpero disse na TV, certo de que estava fora do ar, que o governo mostrava o que era bom e escondia o que era ruim. O presidente Bolsonaro faz justinho o oposto: quando aparece notícia boa, arruma uma briga boba que a esconde. Vamos aqui inverter o processo: dar primeiro a boa notícia e aí contar como Bolsonaro a abafou. O motivo não conto, nem sei, e acho que nem ele sabe.

A boa notícia: o índice de desemprego no país caiu de 11,8% para 11,6%. A queda é minúscula, o índice ainda é monstruoso, o desemprego continua atingindo 12,4 milhões de pessoas. Mas a melhora, embora pequena, mostra queda no desemprego, e pode sinalizar uma tendência (ainda mais com o aumento da produção de papelão, que indica maior consumo de embalagens).

Bolsonaro preferiu povoar o noticiário com uma atitude autoritária e de legalidade discutível: na licitação de assinatura de jornais para o governo, a Folha de S.Paulo foi excluída. Ninguém é obrigado a ler a Folha, nem o presidente, mas o governo não pode ser privado das informações de um dos principais jornais do país. Por que? Primeiro, Bolsonaro disse que não podia inteirar-se de tudo o que fazia cada um de seus 22 ministérios. Então decidiu assumir, e disse: “Eu quero pedir à Folha que se retrate de todos os males e calúnias que fez contra a minha pessoa”. Sem problemas: para isso existe a Justiça. Se processar a Folha e ganhar, poderá obrigá-la a retratar-se de tudo.

Briga longa

Bolsonaro tem criticado pesadamente duas empresas de comunicação, às quais atribui má vontade e má fé ao dar notícias sobre ele (desde a campanha) e seu governo: a Folha e o Grupo Globo. Mas, na licitação sobre assinaturas, só a Folha foi atingida: O Globo está entre os jornais a ser assinados. O problema é que Bolsonaro é presidente, mas não é o governo. Por isso pode ter de enfrentar a reação da Folha nos tribunais – não pelo valor que deixa de receber, pequeno diante do seu porte, mas por uma questão de princípio.

Mais problemas

A decisão do STF de autorizar o compartilhamento de dados obtidos pela Unidade de Inteligência Financeira (ex-Coaf) com o Ministério Público e a Polícia, sem ordem judicial, traz de volta a questão de Flávio Bolsonaro: Dias Toffoli tinha proibido o compartilhamento sem ordem judicial, e os inquéritos instaurados com base nesse compartilhamento foram trancados. Agora, podem ser reabertos. Não é obrigatório que o sejam: a questão é complexa, e o STF deixou para o dia 4 a decisão sobre a maneira de tratar os processos até agora trancados. O caso está entre as queixas de Bolsonaro contra a Folha: foi quem publicou a movimentação financeira de Queiroz, o assessor mais ligado a Flávio Bolsonaro, o que acabou levando ao inquérito.

Pobres de elite

Heloísa Bolsonaro, esposa de Eduardo, o que foi sem nunca ter sido nosso embaixador em Washington, disse no Instagram que o casal “passa por perrengues” vivendo com o salário de cerca de R$ 33 mil do deputado federal. “A gente não fica andando de iate, de jatinho, de primeira classe”. A vida é dura: às vezes ela, pessoalmente, faz a faxina da casa para economizar. E não é só aí que se esforça para fazer economia: “Quando a gente vai para os Estados Unidos, economiza. No Havaí, vivíamos almoçando num mercadinho, que é maravilhoso, e nosso almoço era de US$ 2, US$ 3. Era assim, gente, ficava até mais magrinha, comida maravilhosa!”

Pura coincidência

A Polícia Federal indiciou o presidente do PSL, Luciano Bivar, por suspeita de envolvimento em esquema de candidatas-laranja, com o objetivo de desviar verba pública. O esquema, segundo as denúncias, funciona assim: o partido destina boa parte da verba que recebe do Tesouro para fazer campanha a candidatos que só fingem disputar, e devolvem o dinheiro quase todo para o patrocinador da maracutaia. Bivar foi quem entregou o partido a Bolsonaro para a campanha presidencial; mas depois reassumiu e manteve o controle sobre as magníficas verbas que todos os partidos recebem. Talvez seja este um dos motivos que levaram Bolsonaro a anunciar sua saída do PSL e a fundação de mais uma legenda, a Aliança. Bivar e Bolsonaro brigaram feio, Bivar está expulsando os bolsonaristas do PSL – entre eles Eduardo, o filho 03. Mas é claro que essa briga nada tem a ver com seu indiciamento.

Quem te viu

Sabe a ex-presidente do Tribunal de Justiça da Bahia, Maria do Socorro, apanhada pela Operação Faroeste e detida por ordem do Superior Tribunal de Justiça? Em 2015, pouco antes de assumir a presidência do TJ, em Salvador, a desembargadora Maria do Socorro avaliou a Lava Jato: “Acho que o processo está sendo eficiente (...) a justiça está sendo feita e os culpados deverão ser punidos (...) O povo está carente de Justiça e temos que mostrar que estamos aqui para servir”.

Carlos Brickmann
é jornalista e diretor do escritório Brickmann&Associados Comunicação, especializado em gerenciamento de crises. Desde 1963, quando se iniciou na profissão, passou por todos os grandes veículos de comunicação do país. Participou das reportagens que deram quatro Prêmios Esso de Equipe ao Jornal da Tarde, de São Paulo. Tem reportagens assinadas nas edições especiais de primeiras páginas da Folha de S.Paulo e do Jornal da Tarde.
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