05 Dez 2019 | domtotal.com

O sonho do trabalhador

Desde suas origens, o liberalismo estimulou a emancipação das massas

Somente militantes comemoraram a decisão do STF de revogar a prisão em Segunda Instância
Somente militantes comemoraram a decisão do STF de revogar a prisão em Segunda Instância (Rosinei Coutinho/STF)

Por Jorge Fernando dos Santos

“O povo gosta de luxo; quem gosta de miséria é intelectual”. A frase do saudoso carnavalesco Joãosinho Trinta nunca fez tanto sentido. A saída de Lula da cadeia é uma prova disso. Ao contrário do que os petistas esperavam, somente militantes – inclusive artistas e intelectuais – comemoraram a decisão do STF de revogar a prisão em segunda instância. O povo, por sua vez, prefere o “luxo” da Justiça.

Isso comprova que a maioria não está nem aí para os partidos que se arvoram em representá-la. Quem trabalha duro não tem tempo para participar de movimentos políticos e tampouco está interessado em fazer revoluções. Da mesma forma, os desempregados geralmente procuram emprego e não podem se dar ao luxo do ativismo partidário.

Mas, convenhamos, não há nenhuma novidade nisso. Os próprios líderes da Revolução Russa de 1917 se decepcionaram com a indiferença do operariado europeu frente à possibilidade de implantarem o socialismo em seus países. Ao contrário do desejo de Marx, trabalhadores do mundo inteiro jamais se uniram em torno dos ideais revolucionários.

Comunismo e fascismo

Enquanto a Rússia vivia sob o julgo czarista, em países como a França e a Inglaterra o capital ganhava força, alavancado pelo crescimento industrial. Ampliavam-se dessa forma as oportunidades de trabalho e a oferta de bens de consumo. O processo foi interrompido na Primeira Guerra Mundial (1914-1918), sendo retomado logo após o conflito.  

Como se sabe, o camarada Lênin viu naquele momento uma grande oportunidade para alcançar seus objetivos. Ele fez um acordo em separado com a Alemanha do kaiser Guilherme II para derrubar o czar Nicolau II, o autocrata de todas as Rússias. Em troca de apoio, o líder comunista negociou a retirada do exército russo das frentes de batalha, caso a Revolução Bolchevique alcançasse a vitória – o que de fato ocorreu.

Logo após a guerra, surgiu o fascismo nas lides do socialismo italiano, no qual Mussolini militava. A proposta do novo regime jamais fora concebida pelos comunistas. Se o operariado europeu não aderiu à revolução, a nova doutrina visava cooptar não apenas os trabalhadores, mas também as elites burguesas, sob a bandeira do nacionalismo radical.

Considerado de extrema direita, o fascismo controlou sindicatos, silenciou a imprensa e beneficiou empresários e banqueiros simpatizantes da causa. A mesma receita foi adotada no Brasil durante o Estado Novo de Vargas, assim como na Argentina de Perón, na Espanha de Franco e em Portugal, sob a ditadura de Salazar.

A tática fascista se tonaria ainda mais radical e violenta na Alemanha de Hitler. Sob a suástica do nazismo, seriam exterminados milhões de judeus, ciganos, homossexuais e deficientes – minorias também perseguidas na própria União Soviética.

Produção e consumo

Espremidos entre o comunismo e a extrema direita, os liberais sempre lutaram pela democracia. Durante a guerra, americanos e ingleses se empenharam mais do que nunca na defesa do pluripartidarismo, da liberdade de informação e da iniciativa privada.

Desde suas origens, o liberalismo estimulou a emancipação das massas. A Revolução Industrial teve papel preponderante na abolição da escravatura, na remuneração do trabalho e na emancipação da mulher. Afinal, se o capitalismo visa o lucro, a qualidade da mão de obra é fundamental para o aumento da produção e do consumo de bens.

Para que o sistema siga funcionando, a inclusão social tornou-se o desafio do nosso tempo. No Brasil, o PT compreendeu isso, mas acabou mergulhado de cabeça no maior esquema de corrupção da história. Os governos petistas exageraram no assistencialismo, no controle sindical e no compadrio com empresários desonestos mediante propinas.

Com o advento das novas tecnologias e o aumento das necessidades de consumo, mais do que nunca o trabalhador sonha com um bom emprego e com a possibilidade de adquirir bens e serviços de qualidade. Essa é a realidade de pessoas comuns, que desejam apenas melhorar de vida. Quem prega revoluções são os artistas, intelectuais e políticos de esquerda, que geralmente querem viver às custas do Estado.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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