10 Dez 2019 | domtotal.com

Labirintos

Nós, brasileiros, nos movemos em dois fantásticos labirintos

No labirinto se entra e, depois, tudo é surpresa.
No labirinto se entra e, depois, tudo é surpresa. (Rafif Prawira/ Unsplash)

Por Frei Betto

O rei de Creta encomendou a Dédalos um labirinto – palácio de intrincados percursos, onde as pessoas se perdiam, exceto Teseu, graças ao fio de Ariadne, que o conduziu à saída.

Poucos dias antes de morrer, a 10 de dezembro de 1830, Bolívar reagiu quando o médico recomendou-lhe se confessar: “Que significa isto? Estou assim tão doente que vens me falar de testamentos e confissões? Como poderei safar-me deste labirinto?”

No labirinto se entra e, depois, tudo é surpresa: curvas, bifurcações, retorno ao mesmo ponto, encruzilhadas, ocultamento de saídas, caos aparente, linhas distorcidas, vias que conduzem a lugar nenhum e obrigam a refazer o caminho.

Gabriel García Márquez, em “O labirinto”, tenta decifrar o que Bolívar quis dizer ao citar esta metáfora. Jorge Luís Borges se dedicou a imaginar labirintos perfeitos, lineares, retangulares e circulares, espaciais e temporais. Imaginou um labirinto de labirintos que abarcaria o passado e o futuro, e até mesmo as estrelas.

Octavio Paz, em “O labirinto da solidão”, descreve os espanhóis perdidos no labirinto de nostalgia e introspecção. De fato, a tela “Las meninas”, de Velásquez, de 1656, é o espelho do espelho do espelho...

Miró pintava labirintos para intrigar e entreter. Buñuel tinha visão labiríntica do mundo. Cervantes perdeu-se nos corredores da razão e da loucura, das luzes e das trevas, entre Erasmo e Maquiavel. Dom Quixote somos todos que nos recusamos a distinguir sonho e realidade, ilusão e fato, quimera e concretude, utopia e história. La Mancha, com seus moinhos de vento, é a nossa pátria espiritual.

Nossos heróis são figuras míticas impregnadas de dubiedade. Manipulados pelo poder, esvaziados de sua rebeldia, figuram polidamente em livros didáticos ou congelados em estátuas públicas como o avesso do que foram. Assim, os revoltosos mineiros são chamados de “inconfidentes”, que significa delatores, indignos de confiança. E os bandeirantes, hoje consagrados em monumentos, vias e rodovias, não estão longe da versão barroca do esquadrão da morte rural. Que o digam os povos indígenas.

Nós, brasileiros, nos movemos em dois fantásticos labirintos: o primeiro, a burocracia estatal e seus infindáveis papéis, solicitações e requerimentos, taxas e filas. O direito concedido como favor, e o burocrata travestido de sultão, dotado de poderes mágicos.

O segundo, o carnaval, festa em que nos escondemos atrás de máscaras, e vestimos a fantasia do que não somos. Ali nossa identidade se desintegra e se reconstitui naquele outro que se esconde nos recônditos de nossa alma – ela também labiríntica, andrógina, complexa e cordial.

O carnaval é o grande ritual no qual ofertamos a Momo, no altar da alegria e no panteão dos carros alegóricos, a nossa rebeldia travestida em festa para gáudio dos senhores do poder que, de cima de seus camarotes de luxo, estampam cervejas em suas camisetas e estouram champanhas. Felizes porque o ritual sublima o confronto direto, o povão lá em baixo disfarçado de reis e rainhas, enquanto lá em cima eles, de fato, reinam; o povão de casaca e cartola, enquanto eles mandam; o povão ridicularizando o poder, e eles, inebriados.

Além de deter o controle sobre as almas, desfrutam dionisiacamente da beleza dos corpos desnudos, no espaço em que o sangue se transmuta em suor, e a sensibilidade atinge o ápice como expressão fortuita de uma liberdade negada fora do confinamento orgiástico, prisão de todas as nossas pulsões libertárias. Ali são virtualmente rompidas as fronteiras de raça e sexo, classe e poder.

Os espelhos movediços do labirinto refletem a dádiva de Momo em poucos dias. Depois, sem fantasia, a realidade coloca cada um no devido lugar. E que ninguém tente ultrapassar os limites. Nem ouse estender o fio de Ariadne para encontrar a saída do labirinto.

Frei Betto
é escritor e religioso dominicano. Recebeu vários prêmios por sua atuação em prol dos direitos humanos e a favor dos movimentos populares. Foi assessor especial da Presidência da República entre 2003 e 2004. É autor de "A Obra do Artista – uma visão holística do Universo", "Um homem chamado Jesus", "Batismo de Sangue", "A Mosca Azul", entre outros.
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