09 Jan 2020 | domtotal.com

Hipocrisia ideológica

O PT fecha os olhos à execução de gays e opositores pelo regime teocrático do Irã

O general iraniano Qasem Soleimani em 1 de outubro de 2019 em Teerã
O general iraniano Qasem Soleimani em 1 de outubro de 2019 em Teerã (AFP)

Por Jorge Fernando dos Santos

O Partido dos Trabalhadores condenou os Estados Unidos pelo ataque de quinta-feira passada ao aeroporto de Bagdá. Por meio de um drone, a ação cirúrgica ordenada pelo presidente Donald Trump matou sete pessoas, entre elas o comandante da Guarda Revolucionária do Irã, general Qasem Soleimani, aliado da milícia xiita iraquiana – cujo líder também morreu.

O PT também criticou o governo brasileiro por apoiar os EUA sob o argumento de “combate ao terrorismo”. Independentemente da opinião do presidente Bolsonaro, o que vale é a nota oficial do Itamaraty. Ela reforça o apoio brasileiro à “luta contra o flagelo do terrorismo” e afirma que o Brasil está pronto para participar dos esforços que possam evitar uma escalada de conflitos.

Para o partido de Gleise Hoffman, o argumento antiterror “é falso e encobre a atuação sistemática e criminosa dos EUA no Oriente Médio há muito tempo, estimulando conflitos, desestabilizando a região e colhendo resultados financeiros para investidores das indústrias armamentista e do petróleo”.

Fato é que ninguém minimamente informado desconhece o modus operandi da Casa Branca. No entanto, ao evocar “um chamado pela paz e pelo cumprimento dos acordos multi e plurilaterais” com o Irã feitos no governo de Barack Obama, o Partido dos Trabalhadores age com a hipocrisia ideológica que lhe é peculiar.

Mal necessário

Mesmo se arvorando defensor das minorias, o PT fecha os olhos à execução de gays e opositores pelo regime teocrático do Irã. Tanto é verdade que, em visita ao Brasil durante o governo Lula, o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, foi recebido com pompa e circunstância. Partidos e ativistas de esquerda se comportaram como tietes e ninguém protestou contra os abusos praticados no país dos aiatolás.

A ONU também condenou o ataque americano, mas a verdade é que nunca se esforçou o bastante na defesa dos direitos humanos no Irã, país que promove o terrorismo. De fato, a política externa dos EUA foi quase sempre intervencionista e, muitas vezes, desastrosa. Contudo, muita gente que entende do assunto reconhece que o ataque ao aeroporto de Bagdá foi um mal necessário.

Soleimani não era um simples general, mas um terrorista frio e sanguinário. Foi ele quem liderou o ataque contra a Associação Mutual Israelita Argentina, em Buenos Aires, no dia 18 de julho de 1994. Na ocasião, um atentado com carro-bomba matou 85 pessoas e feriu outras 300. O militar planejou ataques mortais em Damasco, como lembrou Yair Lapid, líder do partido de oposição Azul e Branco, de Israel.

Para o jornalista mineiro Leonardo Coutinho, que reside em Washington e também foi criticado pelo PT, a ação americana “foi justa, pontual, precisa e inteligente”. Especialista em ameaças transnacionais na América Latina envolvendo terrorismo, tráfico e corrupção, ele considera que foi um ato de defesa e não de ataque.

Muita gente alardeia os riscos de uma guerra mundial, na qual a Rússia apoiaria o Irã. Mas devemos lembrar que Putin ajudou na eleição de Trump e é difícil acreditar que não tenha sido previamente avisado sobre o ataque que vitimou Soleimani. O presidente russo pode ser maquiavélico, mas não é burro. Assim como os chineses, ele dificilmente se arriscaria numa guerra de final imprevisível.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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