11 Jan 2020 | domtotal.com

Para construir um mundo novo

Fórum Social das Resistências acontece de 21 a 25 de janeiro, em Porto Alegre, buscando formas mais justas de organizar a sociedade

Fórum Social das Resistências é encontro de movimentos sociais e comunidades
Fórum Social das Resistências é encontro de movimentos sociais e comunidades (Secretaria Internacional do Fórum Social Mundial)

Por Marcelo Barros

Nesse início de ano, as pessoas se desejam feliz ano novo. No entanto, nem todas se dão conta de que, a cada dia, se torna mais urgente e inadiável organizar a sociedade de forma nova e justa. Para o Brasil e toda a América Latina, a maioria dos analistas preveem um 2020 muito difícil, com forte aumento das desigualdades sociais.  O acirramento da intervenção do império norte-americano nos países continuará gerando crises e violências sociais.  No plano ecológico, também as perspectivas não são otimistas. Governos entregam nossos territórios e cidades às empresas mineradoras e multinacionais dos agrotóxicos. Cada vez mais, as pessoas se organizam não por países ou por culturas e sim em comunidades virtuais, congregadas pela internet. Logo atrás dos Estados Unidos, o Brasil é dos países nos quais há mais pessoas ligadas ao "zap" e às redes sociais. As empresas aprimoram modos de controle e vigilância sobre os cidadãos. Poucos se dão conta de que oferecem seus dados pessoais para serem utilizados de acordo com os interesses dos donos das redes sociais.

A sociedade dominante não leva em conta as necessidades verdadeiras da humanidade.  As decisões sobre o futuro têm se concentrado nas mãos de poucos. Estes mantêm o controle do capital global e estão em luta entre si por cada vez mais poder e enriquecimento. Essa elite não leva em conta o direito de todos os seres vivos (humanos, micróbios, plantas, espécies animais). O mercado se tornou instrumento de dominação de empresas transnacionais, anônimas e impessoais. Esse sistema transforma tudo em mercadoria e possível de ser privatizado, inclusive as formas de vida. Nessa realidade social e política, quem representa os seres vivos? Quem poderia falar em nome da humanidade? Perguntas como essas provocaram pessoas de vários continentes a se organizarem e a proporem uma aliança da humanidade em favor da vida. É a Ágora dos/das Habitantes da Terra.

Apesar de todas as dificuldades, os movimentos sociais se organizam e buscam uma articulação mais fecunda. A partir da próxima semana, de 21 a 25 de janeiro, ocorrerá em Porto Alegre o Fórum Social das Resistências. Ali, milhares de pessoas, vindas de diversos países do continente e mesmo com representantes de outras partes do mundo discutirão novos rumos para a construção de um novo mundo possível.

Representantes de povos indígenas e de comunidades quilombolas se reunirão com líderes dos movimentos de trabalhadores. A juventude fará um acampamento internacional de jovens. Haverá um encontro de teólogos/as da libertação e uma oficina sobre a proposta da Ágora dos/as habitantes da Terra.

Para quem vive um caminho espiritual, participar desse trabalho coletivo para transformar a sociedade se revela como modo de viver a intimidade com o Mistério Divino. Nas Igrejas cristãs, cada dia mais se desenvolvem pastorais sociais que cultivam uma espiritualidade libertadora. O caminho da intimidade com o Espírito se dá na caminhada social e política por um novo mundo possível. É nas lutas sociais e na inserção em meio aos pobres que comunidades eclesiais de base e militantes cristãos experimentam a presença do Amor Divino.  Uma Igreja cristã deveria ser ensaio de uma sociedade nova alternativa, baseada na justiça, na paz e na comunhão com a Terra e com a natureza.

Marcelo Barros
Marcelo Barros é monge beneditino e teólogo especializado em Bíblia. Atualmente, é coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). Assessora as comunidades eclesiais de base e movimentos sociais como o Movimento de Trabalhadores sem Terra (MST). Tem 45 livros publicados dos quais está no prelo: "O Evangelho e a Instituição", Ed. Paulus, 2014. Colabora com várias revistas teológicas do Brasil, como REB, Diálogo, Convergência e outras. Colabora com revistas internacionais de teologia, como Concilium e Voices e com revistas italianas como En diálogo e Missione Oggi. Escreve mensalmente para um jornal de Madrid (Alandar) e semanalmente para jornais brasileiros (O Popular de Goiânia e Jornal do Commercio de Recife, além de um jornal de Caracas (Correo del Orinoco) e de San Juan de Puerto Rico (Claridad).
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