16 Jan 2020 | domtotal.com

Os perigos da internet

A mudança de hábitos causada pela tecnologia sempre causou preocupação

Nenhuma criança deveria ter acesso ao celular e à internet antes de ser iniciada no mundo dos livros
Nenhuma criança deveria ter acesso ao celular e à internet antes de ser iniciada no mundo dos livros (McKaela Lee/ Unsplash)

Por Jorge Fernando dos Santos

O brasileiro lê cada vez menos. Até aí não há nada de novo. Contudo, os índices de leitura têm despencado a olhos vistos também em outros países. Basta ver o caso da França. Antigamente, chamava atenção a quantidade de leitores no metrô de Paris. Nos últimos anos, os livros e jornais foram substituídos pelo celular.

A mudança de hábitos causada pela tecnologia sempre causou preocupação. Em 1960, a revista Alterosa publicou nota intitulada O perigo dos discos. Naquele ano, cerca de 30 professores universitários integrantes das casas do Parlamento italiano examinavam “o problema da crescente difusão dos discos, não só musicais, mas também falados, os quais, aliando-se ao rádio e à TV, ameaçam seriamente a posição dos livros, segundo eles”.

A nota também informava que, em 1958, foram vendidos na Itália “nada menos de 22 bilhões de liras em discos”, cerca de quatro bilhões em comparação ao ano anterior. Diante disso, o ex-ministro da Instrução Pública, Giuseppe Ermini (1900-1981), fazia um alertava: “Se continuarmos neste ritmo, chegaremos a ponto de não ler nem mesmo os jornais”.

Certa vez, numa entrevista a um jornal, o escritor americano Norman Mailer (1923-2007) fez uma observação preocupante. Segundo ele, o intervalo comercial na programação da TV condicionou a maioria dos espectadores a interromper a concentração de dez em dez minutos. Isso, de certa forma, alterou a relação das pessoas com os livros e o próprio hábito da leitura.

Hábitos e costumes

Estamos vivenciando as consequências de uma revolução sem precedentes nas comunicações, que impacta como nunca os hábitos e costumes de populações inteiras. Num curto espaço de tempo, a internet – que não chegou a ser prevista por McLuhan, o teórico da “aldeia global” – provocou mais mudanças no nosso dia a dia do que todas as mídias anteriores.

Bom lembrar que o rádio não eliminou a ópera, o teatro ou os shows ao vivo, mas levou anos para modificá-los. O disco, por sua vez, não eliminou o rádio, mas ajudou-o a eliminar suas orquestras. O cinema não eliminou o gosto pelo teatro nem pelo rádio ou pelo próprio disco, mas transformou a maneira como as pessoas lidavam com eles.

A TV, que no início parecia ameaçar o rádio e o cinema, acabou por influenciá-los na renovação de linguagem. Consequentemente, estúdios cinematográficos passaram a produzir filmes exclusivos para a telinha. Contudo, da mesma forma que a internet afetou a cultura dos discos, os canais de transmissão seguida (streaming), tipo Netflix, já ameaçam a TV e o cinema.

Babás eletrônicas

Todos esses meios modificaram a relação das massas com os livros. A primeira evidência disso foi o desaparecimento dos rodapés literários, que foram publicados nos jornais meados do século XX. Também saíram de cena os antigos folhetins, que influenciaram sobremaneira as novelas de rádio e TV.

O problema, contudo, não são as tecnologias, mas a velocidade com que se propagam e a forma como lidamos com elas. Nenhuma criança deveria ter acesso ao celular e à internet antes de ser iniciada no mundo dos livros. No entanto, a negligência de pais e educadores tem permitido exatamente o contrário. Se a TV já foi chamada de babá eletrônica, hoje o celular, a internet, o tablete e os jogos eletrônicos cumprem esse papel.

Como escreveu o psiquiatra britânico Theodore Dalrymple, “a internet tanto é maravilhosa quanto pode ser terrível”. Exemplo disso é que o contato virtual está substituindo os encontros pessoais. E em vez de telefonemas, as pessoas se contentam com a troca de mensagens via WhatsApp, Instagram ou Facebook.

Assim como ajudou a sepultar a maioria dos jornais, é bem possível que as novas tecnologias da comunicação estejam enterrando não apenas o gosto pelos livros e pela própria leitura, mas também o hábito da convivência.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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