15 Jan 2020 | domtotal.com

O bafo de bolso


Há boas expectativas na economia, mas PIB pode não ter bons resultados. No campo político, as coisas continuam com a busca dos próprios interesses e quem pode se ajudar, ajuda a si mesmo

Bolsonaro (ou Guedes) sonha com um PIB que, do quase zero, acelera como um Fórmula Um e em poucos segundos assume a ponta da corrida
Bolsonaro (ou Guedes) sonha com um PIB que, do quase zero, acelera como um Fórmula Um e em poucos segundos assume a ponta da corrida (Glen Wheeler/ Unsplash)

Por Carlos Brickmann

Este é o país dos extremos: ou tem o melhor futebol do mundo, invencível, ou a torcida acha que apanha de 7x1 de qualquer time vietnamita. Economia também é assim: ou nada funciona ou vamos deslanchar já neste ano. Crise na área petroleira do Oriente Médio? Besteira – crise é coisa para os fracos. O Brasil, que já fazia excelentes previsões de desenvolvimento econômico, com crescimento do PIB que não vemos há tempos, mantendo-se a inflação em baixa, começou a refazer os cálculos, prevendo crescimento ainda maior, sem mexer na inflação prevista, e na primeira quinzena do ano!

Delfim sonhava com inflação de 12% ao ano, Dilma sonhava com um forte crescimento induzido por seu Governo, Bolsonaro (ou Guedes) sonha com um PIB que, do quase zero, acelera como um Fórmula Um e em poucos segundos assume a ponta da corrida. Tudo bem, pode acontecer – no Brasil isso aconteceu com Emerson, Piquet e Senna. Só.

O problema é que quando acontece é ótimo, mas quando não acontece é terrível. Se a previsão de alta do PIB é de 2,5 e vai a 2,7, a economia ganha fôlego e pode crescer ainda mais. Mas, se a previsão é de 2,5 e dá menos do que isso, o pessimismo domina a economia e tudo desaba, o consumo e os investimentos. O pessimismo é uma profecia auto-realizável. E, ao mesmo tempo, é consequência que não pode ser evitada quando falham as profecias otimistas e aquele magnífico drive econômico vira apenas uma freada.

As boas notícias

A inflação brasileira está baixa, o agronegócio exporta bem, a queda dos juros pode permitir que a indústria, massacrada nos últimos anos, volte a se desenvolver. No mercado internacional, a situação é boa: hoje, quarta-feira, Estados Unidos e China assinam seu pacto comercial, que põe fim à guerra comercial entre as duas maiores potências econômicas do mundo. Os EUA decidiram suspender o título da China de “maior manipuladora cambial” do mercado – o que significa que as intenções americanas de paz comercial são para valer. As bolsas de lá estão subindo. Claro que o mundo é um moinho e o Irã, hoje quieto, pode se sentir tentado a incomodar os americanos. Já os americanos, hoje quietos, pensam em novas sanções econômicas ao Irã. Em suma, tudo está bem enquanto estiver bem. É o que mantém o Brasil bem.

A política é a política

Quem acreditava que os políticos iriam tomar providências que limitassem sua boa vida está na hora de voltar à velha sabedoria popular: “Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte ou é bobo ou não entende da arte”. E ninguém, imaginemos, terá a coragem de acusar nossos políticos de bobos, ou de não entender da nobre arte de cobrir-se de benefícios. Portanto, nada de surpresa com a decisão que vem sendo encaminhada pela Câmara sobre o fim do foro privilegiado. Suas Excelências foram buscar no Senado uma emenda constitucional já aprovada sobre prerrogativa de foro, prevendo que só seriam beneficiados os presidentes do Executivo, Legislativo e Judiciário e o vice-presidente da República. Ninguém mais escaparia dos magistrados de primeira instância. Mas abolir privilégios sem aboli-los é uma arte. Os juízes de primeiro grau não poderiam determinar que políticos fossem preventivamente presos, ou vítimas de ordens de busca e apreensão, quebras de sigilo bancário, fiscal e telefônico. Isso ficaria para os tribunais, o segundo grau, se o caso até lá chegasse, se os parlamentares não fossem perdoados por sua avançada idade.

A verdade como ela é

Na segunda, dia 20, sai o livro Tormenta – o governo Bolsonaro, da boa jornalista Thaís Oyama, em edição muito bem cuidada da Editora Contexto. Thaís conta detalhes da difícil relação entre o presidente Bolsonaro e o 02, seu filho Carluxo, as brigas que tiveram – por exemplo, Carluxo quis nomear para um bom cargo público seu primo Leo Índio, que o general Santos Cruz rejeitou (mais tarde, Carluxo torpedeou o general Santos Cruz e conseguiu fazer com que fosse demitido). Thaís conta que Bolsonaro quis demitir Moro e foi convencido a desistir pelo general Augusto Heleno; e dá a história, com todos os detalhes, de como Toffoli, sempre petista, e Bolsonaro, que fez campanha contra o PT, foram transformados pelo caso Queiroz em amigos desde criancinhas. O livro foi feito com cuidado por uma jornalista de peso (Thaís é editora-chefe de Veja desde 1999) e editado pela Contexto, do professor universitário Jaime Pinsky, uma das empresas mais conceituadas do setor. Vale a leitura. Detalhe: não é contra nem a favor de Bolsonaro.

E a festa continua

Lembra do general Joaquim Luna, ministro da Defesa de Michel Temer e hoje diretor do lado brasileiro da Itaipu Binacional? O salário do general é de R$ 79 mil mensais. A essa quantia ele mandou acrescentar R$ 221.200 para ele. Os demais funcionários receberam o equivalente, 2,8 salários, como compensação de possíveis perdas decorrentes do acordo coletivo de trabalho.

Carlos Brickmann
é jornalista e diretor do escritório Brickmann&Associados Comunicação, especializado em gerenciamento de crises. Desde 1963, quando se iniciou na profissão, passou por todos os grandes veículos de comunicação do país. Participou das reportagens que deram quatro Prêmios Esso de Equipe ao Jornal da Tarde, de São Paulo. Tem reportagens assinadas nas edições especiais de primeiras páginas da Folha de S.Paulo e do Jornal da Tarde.
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