23 Jan 2020 | domtotal.com

Goebbels e o socialismo

O próprio Hitler repreendeu o jovem doutor em Filosofia numa reunião partidária

Joseph Goebbels foi, no início, um entusiasta da revolução bolchevique
Joseph Goebbels foi, no início, um entusiasta da revolução bolchevique (Reprodução)

Por Jorge Fernando dos Santos

O presidente Jair Bolsonaro errou feio quando nomeou o dramaturgo Ricardo Alvim para a Secretaria Especial de Cultura. Felizmente, na semana passada, acertou no alvo ao destituí-lo do cargo logo após o patético pronunciamento (ou performance?) copiado de Joseph Goebbels – ministro da Cultura e da Propaganda nazistas.

Refutando as críticas da esquerda, bolsonaristas lembraram nas redes sociais que Lula elogiou Hitler numa entrevista à revista Playboy, em 1979. Há que se dizer, no entanto, que uma burrice não justifica outra. O episódio da semana passada serviu para abrir o debate sobre as semelhanças entre nazismo e socialismo, rivais históricos do pensamento liberal.

Joseph Goebbels foi, no início, um entusiasta da revolução bolchevique. Leitor voraz, “devorou” O capital, a obra máxima de Karl Marx, e acreditou que o socialismo soviético seria bom também para os alemães. Talvez por oportunismo, o frustrado escritor foi aos poucos se rendendo ao ideário nazista, tonando-se apaixonado pela figura de Hitler, ao qual se curvaria.

A história é narrada no livro Joseph Goebbels – uma biografia, escrito por Peter Longerich, a partir do diário do biografado. Goebbels era admirador da literatura russa e acabou se interessando pela revolução. Ao se ligar aos nazistas, posicionou-se na ala esquerda do partido. Em suas anotações constam elogios a Lênin e a Stálin, a quem considerava o grande líder dos povos eslavos.

O Partido Nazista editava uma revista chamada Briefe. Nela, em 1920, o neófito publicou um artigo no qual afirmava que não se devia conceber o bolchevismo russo como forma de governo, sobretudo “judaica”; convinha, isto sim, entendê-lo como uma tentativa de abrir um caminho nacional russo rumo ao socialismo.

Goebbels defendia que a luta entre as forças judaico-internacionais e a nacional-russa, no seio do movimento bolchevista, ainda não tinha terminado. E mais: “Só com uma Rússia verdadeiramente nacional e socialista” se poderia reconhecer o “início da nossa própria afirmação nacional e socialista”.

A linha de Munique

Alfred Rosenberg, ideólogo do nazismo, escreveu que Lênin, com a reforma agrária, não havia libertado os camponeses russos – como dissera Goebbels. Para ele, também era errado acreditar que o comunista soviético apoiaria o proletariado alemão a fim de assegurar a existência nacional da Rússia, a que chamava de “judeia soviética”.

Rosenberg deixava claro, dessa forma, que a avaliação do bolchevismo feita por Goebbels contrariava a linha partidária de Munique. O próprio Hitler repreendeu o jovem doutor em Filosofia numa reunião partidária. Por sua vez, quando leu Mein Kampf, Goebbels soube que o führer considerava o governo bolchevista um instrumento dos judeus e isso o decepcionou.

Discursando sobre o tema “Lênin ou Hitler?”, o futuro ministro reafirmou como positiva a reforma agrária soviética, mas concluiu que a política industrial de Moscou havia malogrado por não solucionar a “questão judaica”. E se retratou: “Não é de lá que virá a salvação do povo alemão, pois o comunismo, sendo aliado dos vigaristas judeus da Bolsa, nunca há de querer a verdadeira liberdade”.  

Apesar disso, segundo Ludwig von Mises, membro da Escola Austríaca de pensamento econômico, 17 dos 25 pontos do nazismo foram inspirados no socialismo. Não por acaso, antes de se chamar Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, a agremiação da suástica tinha o nome de Partido Socialista Alemão.

Oxalá o fantasma de Goebbels não tenha se incorporado em Ricardo Alvim – que agora acusa “forças satânicas” pelo vexame. O ministro nazista foi um dos responsáveis pelo extermínio de judeus e de outras minorias nos terríveis campos de concentração. Sua obra foi maligna e seu nome deve permanecer na lata de lixo da História.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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