30 Jan 2020 | domtotal.com

Tragédia anunciada

Para chegar ao subsolo, a água da chuva abre caminhos na selva de pedra impermeável

Ruas de Belo Horizonte ficaram totalmente destruídas
Ruas de Belo Horizonte ficaram totalmente destruídas (Allan Calisto/Futura Press/Agência Estado)

Jorge Fernando dos Santos

O dilúvio que vem arrasando Minas Gerais nos últimos dias deixa claro, mais uma vez, que cidade não rima com chuva. Na verdade, são adversárias naturais. A primeira é um artifício criado pelo homem justamente para se proteger das intempéries. A outra é a própria natureza em ação.

Vários municípios mineiros estão debaixo d’água. O número de vítimas cresce a cada dia. Nessa terça-feira, foi o caos na região Centro-Sul de BH. Sem muito o que dizer, o prefeito Alexandre Kalil declarou recentemente que uma precipitação como essa só ocorre a cada mil anos. Precipitado foi ele, que parece ter se esquecido das inundações de décadas passadas.

Como no samba de Paulinho da Viola, tinha eu 14 anos de idade, em 1970, quando subi no palco do Francisco Nunes para falar uma poesia no Festival de Artes do Colégio Anchieta. Naquela noite, caiu uma tromba d’água e ficamos ilhados no teatro cheio de goteiras. O Arrudas inundou o “baixo Belô”, a Rodoviária, a Praça da Estação, o Parque Municipal e outros pontos.

Depois de ver esse filme se repetir por várias vezes, Angelo Pinho e eu compusemos o Pagode do Arrudas, gravado pela saudosa Helena Penna no CD Belôricéia, no centenário da cidade: “O rio Arrudas encheu / O rio Arrudas encheu / Levou tudo o que era meu”... Se a letra continua atual, o mérito certamente não é nosso.

Rio aprisionado

Em vez de livrar o Arrudas do esgoto e devolver-lhe a vida por direito, os políticos decidiram aprisioná-lo numa jaula de asfalto e concreto. Acontece que o rio está sujeito às leis da natureza. Uma delas é o ciclo das águas. E assim, de tempos em tempos, nosso Sena bosteiro derrama seus impropérios contra a estupidez humana.

O problema, portanto, não são os temporais, mas o fato de se construírem cidades em locais de risco. Córregos e rios não se resumem a filetes d’água, que escorrem calmamente nos períodos de seca. Ao seu redor ficam as várzeas, áreas de vazantes. Por isso as enchentes causam tantos prejuízos.

Belo Horizonte tem muitos córregos embaixo do asfalto. Um deles é o Acaba Mundo, que segue sonolento pelo canal subterrâneo da Rua Professor Morais até a Afonso Pena, alcançando o Parque Municipal e desaguando no Arrudas. Na Prudente de Moraes passa o Leitão, cujo serpentear foi acompanhado pela avenida.

O nome deveria ser “Imprudente” de Moraes, já que as águas são incontroláveis e os homens fingem não saber. O mesmo córrego escorre até a Rua São Paulo e dobra à esquerda nos rumos do Arrudas, passando por trás do Mercado Central. Nessa terça-feira, quando menos se esperava, o Leitão rugiu feito um leão.

A Catalão, por sua vez, já foi um pântano. Havia nela uma lagoa cercada de manguezais, na qual a molecada costumava nadar e contrair xistose. Quando a lagoa transbordava, as águas desciam a Pedro II em direção ao Arrudas. Esse córrego também virou esgoto e acabou sendo canalizado.

Selva de pedra

O Barro Preto tem esse nome devido à cor escura do solo. Toda aquela área servia de vazante para o Arrudas, no qual, segundo meu pai, meu avô Ricardo chegou a pescar. Depois vieram os italianos e formaram ali sua colônia, que daria origem ao bairro cantado pelo compositor Gervásio Horta – pescador da velha ponte do Perrela.

Foi na gestão do prefeito Maurício Campos e do governador Hélio Garcia que resolveram engaiolar o Arrudas. Ampliaram o espaço do seu leito, é verdade, mas concretaram cada centímetro do seu percurso. Alguém alertou que estavam construindo uma bomba-relógio, mas ninguém deu ouvidos.

A administração Fernando Pimentel cobriu boa parte do ribeirão, justamente numa curva, criando assim o “bulevar” da Avenida dos Andradas. Segundo a Defesa Civil, tudo aquilo pode ir por água abaixo a qualquer momento. Pudera! Jamais pensaram em restituir a várzea, criar áreas de drenagem ou replantar pelo menos uma parte da mata ciliar. E o tique-taque da bomba continua.

Os políticos não são de todo culpados, mas pecam quando não fazem o dever de casa. Deveriam começar separando o esgoto da água das nascentes, como foi feito em cidades da Europa. Outra ideia seria substituir parte do asfalto por calçamento permeável. O povo, por sua vez, ajudaria muito se não jogasse lixo nas ruas, nos córregos e canais de escoamento.

Para chegar ao subsolo, a água da chuva abre caminhos na selva de pedra impermeável, arrastando tudo o que encontra pela frente. As lágrimas das vítimas – aqueles que perderam tudo – se misturam à lama da tragédia. Mas, após a temporada das cheias, vem o Carnaval e todo mundo esquece a lição ao primeiro rufar dos tambores.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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