13 Fev 2020 | domtotal.com

O index de Rondônia

Os escritores têm sido avaliados muito mais por critérios políticos do que estéticos

Retrato de Machado de Assis feito por Marc Ferrez
Retrato de Machado de Assis feito por Marc Ferrez (Wikimedia)

Por Jorge Fernando dos Santos

Já foi dito que o presidente Jair Bolsonaro não precisa de inimigos, pois ele mesmo e seus aliados costumam provocar mais estragos à imagem do governo do que os adversários. Exemplo disso ocorreu na quinta-feira passada, quando a Secretaria de Educação de Rondônia – estado governado pelo Coronel Marcos Rocha, do PSL – tentou censurar clássicos da literatura. 

A ideia de jerico era retirar das bibliotecas escolares estaduais os livros que apresentam “conteúdos inadequados para crianças e adolescentes”. Ora, por esse critério deveriam começar pela Bíblia. Afinal de contas, o Livro Santo está cheio de narrativas “inadequadas”, entre elas a história de Caim e Abel – que poderia ser um estímulo à prática do fratricídio.

Entre as obras incluídas no index de Rondônia constam algumas que são fundamentais para entender o Brasil. É o caso da epopeia Os sertões, de Euclides da Cunha, e do romance Macunaíma, do modernista Mário de Andrade.

Também entraram na lista de “malditos” autores como Aurélio Buarque de Holanda, Ferreira Gullar, Carlos Heitor Cony, Nelson Rodrigues e Rubem Fonseca – campeão entre os censurados. Sobrou até para o americano Edgar Allan Poe, considerado o pai da ficção policial. 

Boca no trombone

O maior disparate, no entanto, foi querer censurar Memórias póstumas de Brás Cubas, obra-prima de Machado de Assis. Vale perguntar se o “conteúdo indesejável”, nesse caso, seria o fato de Cuba aparecer no plural. Se foi esse o motivo, podemos deduzir que o Bruxo do Cosme Velho foi um comunista precoce, agora desmascarado pelo macarthismo tupiniquim.

Ao saber da insidiosa lista, o Sindicato dos Professores de Rondônia pôs a boca no trombone, considerando a medida “um atentado à educação, ao conhecimento e à liberdade de expressão”. A OAB classificou o ocorrido como “odiosa censura”. “Gesto deplorável”, emendou a Academia Brasileira de Letras numa nota oficial. Até o ministro Dias Toffoli, que já quis censurar a opinião pública sobre o STF, considerou o episódio “inacreditável”.

O texto que ordenava a retirada dos livros das bibliotecas escolares rondonienses foi redigido em nome do secretário de Educação, Suamy Lacerda de Abreu. No entanto, a assinatura eletrônica no sistema da Secretaria era da diretora Irany de Oliveira Lima Morais, terceira na hierarquia do órgão.

Tão logo o documento vazou para imprensa, Suamy informou que se tratava de um “rascunho” feito por técnicos, e garantiu não concordar com a medida. Nesse caso, deveria transferir a equipe de incompetentes para os confins da Amazônia – ou ser demitido sumariamente pelo governador. Todavia, não é de duvidar que o episódio tenha sido um balão de ensaio para futuras ações censórias.

Critério ideológico

A bem da verdade, há que se lembrar que a tentativa de ressuscitar a censura no país não é coisa só da direita. A ideia de implantar o “controle social” da mídia partiu da esquerda. Além disso, nos últimos governos, tornou-se prática corriqueira patrulhar ou desmerecer artistas e escritores considerados reacionários ou politicamente incorretos.

O episódio mais polêmico foi em torno de Monteiro Lobato, acusado de racismo devido a uma fala grosseira da boneca Emília, do Sítio do Pica-pau Amarelo. E o pior é que já tem autor ganhando dinheiro para “revisionar” trechos do maior clássico da literatura infantil brasileira – a serviço de editores oportunistas, naturalmente.

Enquanto isso, as comissões avaliadoras dos planos de leitura, principalmente no Ministério da Educação, procuram chifres em cabeça de cavalo. Difícil entender os critérios de escolha dos livros a serem distribuídos para bibliotecas públicas e escolares. Se na era petista os autores de esquerda eram melhor avaliados, tudo indica que agora será a vez dos conservadores alinhados com o bolsonarismo.  

 Não bastassem os baixos índices de leitura no país, a literatura nacional parece fadada a enfrentar a sanha do Estado e seus ideólogos. Os escritores têm sido avaliados muito mais por critérios políticos do que estéticos. A julgar pela ignorância dos governantes, isso até que faz sentido. Se Lula da Silva confessou ter preguiça de ler, Bolsonaro provavelmente nunca leu sequer um manual de artilharia.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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