14 Fev 2020 | domtotal.com

Cordialidade ou ódio de classe?

'Sempre fomos assim. O Brasil não mudou. O ódio de classe sempre guiou nossas elites e classes médias'

'Bolsonaro mesmo, já disse, no mesmo sentido, ao vetar a bagagem grátis em aviões, que eles (os petistas) gostam de pobre'
'Bolsonaro mesmo, já disse, no mesmo sentido, ao vetar a bagagem grátis em aviões, que eles (os petistas) gostam de pobre' (Isac Nóbrega/PR)

Por Marcel Farah

Esta semana o ministro da economia, Paulo Guedes, comemorou a alta do dólar, pois, com a moeda estrangeira baixa, "empregada doméstica estava indo pra Disney". Há muito o dólar não está baixo, mas a frase explica muito sobre o Brasil.

Segundo este ser humano desprezível, portanto, a Disney não é lugar para empregadas domésticas, ou, o lugar para domésticas não deve ser o mesmo que para suas patroas, ou empregados e patrões não devem partilhar os mesmos espaços na sociedade e por certo também não podem ter os mesmos direitos. Bolsonaro mesmo, já disse, no mesmo sentido, ao vetar a bagagem grátis em aviões, que eles (os petistas) gostam de pobre.

A desesperada tentativa da classe média e alta de manter seu status não é novidade. Como lembrou Luiz Felipe Miguel em seu livro, O Colapso da Democracia no Brasil, as classes médias têm um "eterno receio em perder a diferença em relação aos mais pobres". Dai o incômodo de medianos ao partilhar do mesmo aeroporto que trabalhadoras e trabalhadores em anos mais recentes.

Mas, o mesmo Miguel lembra que não é um fenômeno novo. Citando o Memorial dos Coronéis de 8 de fevereiro de 1954, ano da morte de Getúlio Vargas, explica o cientista político que, representando a oposição conservadora ao governo getulista, o documento não defendia melhores soldos para o militares, mas era contrário ao aumento do salário mínimo, para impedir que trabalhadores ganhassem salários próximos aos dos soldados.

O que ocorre nos dias atuais, voltamos no tempo? Regredimos em termos civilizacionais?

Não.

Sempre fomos assim. O Brasil não mudou. O ódio de classe sempre guiou nossas elites e classes médias. Isso explica porque a corrupção é condenável para o Lula e não o é para o FHC, ou porque a justiça é célere e efetiva contra o PT, mas não contra o PSDB, o DEM, ou o PMDB.

Aquele mito da cordialidade do povo brasileiro só se sustenta se se tratar de como a classe média trata os seus, pois, quando se trata da relação com trabalhadoras e trabalhadores, a escravidão nunca deixou de ser o paradigma.

Escrito com a contribuição sine qua non de Renata Nasser Serradourada.

Marcel Farah
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