20 Fev 2020 | domtotal.com

A cartilha do Kalil

A julgar pela intolerância que assola o país, o espírito carnavalesco pode estar com os dias contados

Elaborada pelo Conselho Municipal de Igualdade Racial, a cartilha do prefeito Kalil visa orientar o comportamento dos foliões
Elaborada pelo Conselho Municipal de Igualdade Racial, a cartilha do prefeito Kalil visa orientar o comportamento dos foliões (Chico Ribeiro/ Agência Minas Gerais)

Por Jorge Fernando dos Santos

Nunca me fantasiei no carnaval, mas acho que este ano vou sair de odalisca. Isso porque a cartilha politicamente correta da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) contraria a essência do reinado de Momo, que tem em sua gênese a irreverência, a inversão de papéis e a crítica dos costumes. 

Surgido na Roma antiga, onde a galera desfilava nua a bordo de carroções em forma de navio, o carrum navalis virou carnaval e se tornou catarse coletiva. Não é sem razão o fato de a folia brasileira ser considerada o maior espetáculo da Terra. Somos o país da piada pronta, habitado por um povo alegre e irreverente.

Elaborada pelo Conselho Municipal de Igualdade Racial, a cartilha do prefeito Kalil visa orientar o comportamento dos foliões em nome das chamadas minorias. Entre outros devaneios, recomenda aos homens não se fantasiarem de mulher. Mas ao longo do ano será permitido, como já ocorre por aí. Felizmente, a rapaziada da Banda Mole não deu ouvidos à asneira e soltou a franga no último sábado.

Em BH, fantasiar-se de mulher remonta ao carnaval de 1897, quando operários travestidos desfilaram pelas ruas da cidade ainda em construção. De lá para cá, a coisa pegou, e nunca se soube de mulher que reclamasse. Pelo contrário, algumas até emprestam o vestido ao consorte, para que possa dar vasão às fantasias.

Malditas marchinhas

Do jeito que a coisa vai, brevemente quem se vestir de alface ou pepino será preso por desrespeito aos veganos, vegetarianos e ecochatos de plantão. A tal cartilha propõe outros disparates, como evitar as perucas blackpower, sendo que as louras e ruivas continuam valendo. Quanto ao lixo e ao xixi nas ruas, nada contra.

As velhas (digo, idosas) marchinhas que ainda fazem sucesso também devem ser evitadas. Se vivo fosse, o genial Lalá seria crucificado por cantar O teu cabelo não nega. O retinto e elegante Ataulfo Alves correria o risco de ser enforcado como traidor por glorificar a Mulata assanhada, que tantos rebolados já embalou.

Defensores dos animais pediriam a cabeça do grande Braguinha, pelo simples fato de ter composto Touradas de Madri (parará tibum, bum, bum...). O veterano João Roberto Kelly que se cuide! Afinal, são de sua lavra Cabeleira do Zezé, Mulata bossa-nova e Maria sapatão, imortalizadas por Emilinha Borba e Chacrinha.

A caricatura e a irreverência são a alma da folia momesca. O carnaval começou justamente entre os excluídos, como forma de extravasar frustrações e debochar das elites. Somente nos dias de Momo é que o operário ou o simples morador do morro podia sambar nas ruas, sem ser molestado. As donzelas, por sua vez, se fantasiavam de ciganas, gueixas e índias, sem que ninguém se ofendesse com isso. A cartilha do Kalil é restritiva, mas se a Marinha proibisse a fantasia de marinheiro e o quepe de almirante seria um deus-nos-acuda na galera de esquerda, com certeza.

Anacronismo de direita

O revisionismo histórico é uma das tragédias do nosso tempo. Aqueles que o praticam falseiam o passado e presentificam os preconceitos, muitos dos quais já ridicularizados com humor e irreverência. O melhor exemplo veio do trapalhão Mussum, autor de bordões engraçados do tipo “negão é seu passadis”.

Há que se admitir que o anacronismo não se restringe às lides autoproclamadas progressistas, defensoras dos fracos e oprimidos. Da mesma forma que os neonazistas negam o holocausto, a extrema direita tupiniquim (olha o politicamente incorreto de novo!) garante que nunca houve golpe ou ditadura militar no Brasil.

Bolsominions tampouco admitem que a tortura tenha sido corriqueira no regime pós-64. Por razões moralistas e religiosas, também reagem aos “excessos” do carnaval. Exemplo disso foram as críticas inflamadas ao enredo da Mangueira do ano passado e, provavelmente, também ao deste ano.

É, a julgar pela intolerância que assola o país, o espírito carnavalesco pode estar com os dias contados. E ai daquele que puxar o Samba do crioulo doido ou der apito a botocudo! Errare humanum est. Os extremos, quando se tocam, é porque se merecem.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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