05 Mar 2020 | domtotal.com

Quem tem medo das ruas?

Não faz sentido temer manifestações, sejam elas a favor ou contra o governo

Rodrigo Maia discutiu parlamentarismo na Espanha, onde se encontrou com rei Felipe VI
Rodrigo Maia discutiu parlamentarismo na Espanha, onde se encontrou com rei Felipe VI (Casa de S.M. el Rey)

Jorge Fernando dos Santos

As manifestações em apoio ao governo federal programadas para o próximo dia 15 têm tirado o sono da oposição. O Centrão, a autodenominada “resistência” e até ministros do STF insinuam que o presidente da República está tramando um golpe de Estado – o que parece, no mínimo, paranoia.

Alguns comparam os atos pró-Bolsonaro à Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que apoiou o golpe militar de 1964. Contudo, omitem o fato de que foi o presidente João Goulart quem convocou o povo para o comício da Central do Brasil, que acabou sendo o estopim da sua deposição.

O quadro atual é inverso ao daquela época. Bolsonaro foi eleito com quase 58 milhões de votos. O motivo de sua vitória foi o descontentamento com a corrupção dos governos anteriores. Portanto, ele não precisa tomar o poder, pois já o exerce democraticamente. Se o fizesse, daria um tiro no pé.

O verdadeiro golpe tem sido tramado justamente por alguns que se arvoram defensores da democracia. É o caso dos presidentes da Câmara e do Senado, Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre, que chantageiam o governo, travam projetos, derrubam vetos e aumentam verbas parlamentares. As eleições municipais deste ano, por exemplo, custarão bilhões reais.

Causas da crise

De fato, Bolsonaro tem pouca articulação política. Trocou o ministro da Casa Civil por um militar justamente por não confiar nos partidos. Suas declarações à imprensa e nas redes sociais municiam seus adversários. Outro problema é o radicalismo dos bolsominions, que ajuda a isolar o governo. Apesar disso, o presidente tem cumprido a Constituição.

O principal motivo da atual crise é o fato de o governo não barganhar com o Congresso. Nunca antes na história deste país nomeou-se um ministério tão eminentemente técnico, e sem espaço para negociatas. Os políticos, obviamente, não gostaram de perder a boquinha.

Sem o apoio das ruas, as raposas conspiram lá fora. Durante o Carnaval, Rodrigo Maia esteve em Madri, onde se reuniu na embaixada brasileira para discutir parlamentarismo. Na viagem paga com o nosso dinheiro, ele teria desrespeitado a Constituição e a lei de Segurança Nacional.

Pelo visto, o Botafogo do propinoduto da Odebrecht sonha implantar no Brasil o sistema de governo que já foi rechaçado pelo povo, no plebiscito de 1993. Ele até se encontrou com o premiê espanhol, Pedro Sanchez, e o rei Felipe VI. Vale perguntar se pretende ressuscitar também a monarquia, já que a república brasileira parece ter fracassado.

Lula na Europa

Depois de visitar o Papa Francisco, Lula viaja pela Europa às custas do erário público. Recebeu em Paris o título de cidadão honorário, com um discurso de 30 minutos cheio de bravatas. Por aqui, alguns falam em impeachment e, para a surpresa geral, ele e FHC dizem não concordar. Aliás, FHC declarou que o país precisa é de lucidez.

Lucidez é o que falta àqueles que querem melar a nomeação de Sérgio Moro para o STF. Tudo bem que os ministros do Supremo deveriam ser escolhidos de outra forma, talvez por concurso entre juízes de carreira. Mas todos que lá estão foram indicados pelo Executivo. Mudar as regras do jogo com a bola em campo é o mesmo que tentar vencer no tapetão.

 Como disse o “Senhor Diretas”, Ulysses Guimarães, “a única coisa que mete medo em político é o povo nas ruas”. Daí o pânico de alguns diante dos atos previstos para o dia 15. No entanto, não faz sentido temer manifestações, sejam elas a favor ou contra o governo. Até porque, em seu artigo 5º, a Carta Magna garante esse direito a todos os brasileiros.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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