20 Mar 2020 | domtotal.com

Corremos para o precipício por opção?

Os efeitos da pandemia serão muito mais fortes e letais sobre as populações empobrecidas

A ideia de que uma quebra econômica levará a mais mortes do que a pandemia só é razoável em meio à irrazoabilidade do sistema econômico que vivemos
A ideia de que uma quebra econômica levará a mais mortes do que a pandemia só é razoável em meio à irrazoabilidade do sistema econômico que vivemos (Jérémy Stenuit/ Unsplash)

Por Marcel Farah

A racionalidade do capitalismo é notável. Quanto mais precisamos de álcool gel, devido à pandemia, maiores se tornam os preços nos mercados, o pote que era vendido por 7, agora custa 40. Nada mais racional para a coletividade que a lei da oferta e da procura, livre, sem mediações.

O momento de necessidades coletivas que vivemos, frente um vírus, que, segundo o ministro da saúde iraniano, é democrático, por não diferenciar entre ricos e pobres, é revelador da ignorância a que somos submetidos neste mundo.

As necessidades sempre foram coletivas, o combate à fome e à desigualdade somente serão efetivos quando percebermos que há conexão entre tudo. Se existem pobres é porque existem ricos. Se existem países de terceiro mundo é porque existem os de primeiro. O ouro das Américas extraídos com o trabalho de escravos africanos sustenta as civilizações exemplares que se tornaram parte dos países europeus.

Os efeitos da pandemia serão muito mais fortes e letais sobre as populações empobrecidas que, no isolamento, andam de ônibus e metros lotados, convivem em cubículos que são os barracos das favelas. Mais uma vez a lógica capitalista mostra todo seu poder necropolítico. Entretanto, os ricos não serão poupados.

O desmonte dos sistemas públicos estatais de saúde, segurança, comunicação, transporte revelam que a busca incessante e eterna pelo lucro promovida pelo capitalismo nos levará todos à morte, senão desta feita, nas próximas que virão.

Não haveria porque pensar em renda mínima ou distribuição de dinheiro por helicóptero, caso tivéssemos recursos orçamentários para os serviços públicos e não para dar fluidez aos mercados.

Lendo o noticiário parece ser mais terrível que a pandemia, o abarrotamento dos serviços de saúde e as mortes, o derretimento das bolsas de valores.

A ideia de que uma quebra econômica levará a mais mortes do que a pandemia só é razoável em meio à irrazoabilidade do sistema econômico que vivemos.

O livre do “livre mercado”, só serve ao capital, ao dinheiro cuja correnteza concentra a riqueza no topo das pirâmides nacionais e internacional. A eficiência que prega ter o sistema capitalista, é apropriada por poucos. O melhor resultado que se produzirá será uma sociedade com 30% de incluídos e 70% de excluídos. Essa é a racionalidade que queremos?

A questão é que, o novo coronavirus não respeitará essa divisão, a necropolítica, que é também uma política suicida, inclui a elite dominante nos óbitos, pois, na realidade, o mundo rico existe sobre o pobre.

A história que nos trouxe até aqui é marcada por propostas alternativas ao capitalismo, que disputam “como” fazer uma sociedade diferente, mas concordam que um mundo diferente á possível. Se pudermos escolher, e para isso precismos nos mobilizar, escolheríamos continuar neste sistema? Vivemos no capitalismo por opção?

Marcel Farah
Educador Popular
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