02 Abr 2020 | domtotal.com

Pandemia exige união

Justamente por pisar no esgoto é que boa parte dos brasileiros está mais susceptível a doenças

O Brasil tem uma grande população de pobres sem saneamento básico
O Brasil tem uma grande população de pobres sem saneamento básico (Fernando Frazão/Agência Brasil)

Por Jorge Fernando dos Santos

Ao contrário do que possa parecer, o óbvio nem sempre é ululante. Sobretudo no Brasil, em tempos de pandemia. O próprio presidente, Jair Bolsonaro, parece não entender a gravidade do momento. Mais preocupado com a economia do que com a saúde pública, ele insiste em contestar o isolamento social recomendado pelas autoridades médicas.

Em vez de unir esforços para ampliar leitos e equipamentos hospitalares, parte dos políticos prefere fazer palanque. Tal comportamento nada acrescenta à dura realidade que o país começa a enfrentar. Como já era esperado, dia após dia aumentam os diagnósticos de Covid-19 no território brasileiro, inclusive com a morte de alguns infectados.

O quadro nacional poderá não ter as mesmas cores do que se vê em outros países. No entanto, por mais otimistas que sejamos, temos que observar a previsão dos especialistas. Pesquisadores de Oxford acreditam que cerca de 478 mil brasileiros podem morrer de Covid-19. Já o biólogo Atila Iamarino fala em 1 milhão, se as devidas providências não forem tomadas.

Pés no esgoto

Países se diferem em dimensões territoriais, clima, fauna, flora, cultura e realidade social. E é justamente aí que mora o perigo. O Brasil tem uma grande população de pobres sem saneamento básico. Ao contrário do que disse Bolsonaro, justamente por pisar no esgoto é que boa parte dos brasileiros está mais susceptível a doenças.

Outro flagrante da nossa dura realidade é a deficiência do sistema público de saúde. Se o SUS parece perfeito no papel, na prática ele não dá conta da demanda diária de pacientes – que dirá em tempos de pandemia. Daí a necessidade de se abrirem leitos hospitalares, inclusive em terrenos baldios, igrejas, quadras e arenas esportivas.

Até que isso ocorra, o isolamento social é a única estratégia possível para desacelerar o avanço da pandemia. Quem sai perdendo com a politização da Covid-19 é a população, que se mostra dividida não só ideologicamente, mas no que concerne aos métodos de enfrentamento com a doença.

Inimigo de todos

É lamentável que alguns políticos queiram atirar migalhas ao povo do dinheiro que a ele pertence. O Congresso Nacional, por exemplo, contenta-se em criticar Bolsonaro, sem, no entanto, abrir mão dos fundos eleitoral e partidário. Ninguém falou em reduzir mordomias e altos salários dos marajás, que sempre sugaram os cofres públicos.

O governo federal anunciou recursos da ordem de 2% do PIB para socorrer trabalhadores atingidos pela crise. Uma mixaria, se considerarmos que o Congresso Americano aprovou 5,3% – cerca de 2,2 trilhões de dólares. Cogita-se ainda ampliar a proporção para 11,3%. Já o Reino Unido e a Espanha vão investir quantias equivalentes a 17% do PIB de cada um.

Fato é que, até agora, o número de brasileiros infectados com o novo Coronavírus é relativamente pequeno, se comparado à Europa e aos EUA. Contudo, é preciso entender que a Covid-19 ameaça a todos nós, independentemente de sexo, raça, credo, idade, ideologia ou status social. Estamos em guerra, e temos que somar esforços para enfrentar o inimigo.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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