30 Abr 2020 | domtotal.com

E o mito se desconstrói

Bolsonaro se revela um caudilho que acredita nas próprias falácias

Bolsonaro recebe o caricato Luciano Hang, conhecido como Veio da Havan, para audiência no dia 29 de abril, sem respeitar protocolos de saúde como distância e uso de máscaras
Bolsonaro recebe o caricato Luciano Hang, conhecido como Veio da Havan, para audiência no dia 29 de abril, sem respeitar protocolos de saúde como distância e uso de máscaras (Marcos Corrêa/PR)

Por Jorge Fernando dos Santos

Nunca antes na História do Brasil tivemos um presidente tão irresponsável e desconectado da realidade. Eleito em 2018 com quase 58 milhões de votos, Jair Messias Bolsonaro assumiu o poder com a faca e o queijo na mão, mas corre o risco de cortar o pescoço.

Em vez de pacificar o país e governar para todos, ele permanece no palanque, alimentando a política fascista do “nós e eles” propagada pelo paradigmático Lula da Silva. Aqueles que o chamam de mito provavelmente desconhecem o significado da palavra. Seja como for, o mito se desconstrói.  

Bolsonaro se revela um caudilho que acredita nas próprias falácias. Formou uma equipe eminentemente técnica, mas persegue todo aquele que possa lhe fazer sombra. Com pouco mais de um ano no poder, converteu aliados em inimigos e agora se aproxima dos piores quadros do Centrão – visando enfraquecer Rodrigo Maia e erguer barricadas contra o impeachment.

As mudanças na Política Federal e nos ministérios da Saúde e da Justiça evidenciam a esquizofrenia do mandatário. Ele briga com os fatos, colocando em risco a estabilidade institucional e a vida dos cidadãos frente à Covid-19. Sua aliança com o Centrão e o impacto da pandemia podem rasgar a pauta liberal e provocar a saída do ministro Paulo Guedes.

Cada vez mais isolado no poder – e pela comunidade internacional –, Bolsonaro atua de maneira tão contraditória que há quem diga que ele sofre das faculdades mentais. Seu cinismo diante das mortes provocadas pelo coronavírus beira o sadismo. Sua conduta tem preocupado inclusive militares do governo.

“L’Etat c’est moi”

Bolsonaro se diz defensor da família como célula mater e talvez por isso defenda a sua com unhas e dentes. Numerados por ele como peças numa linha de montagem, seus filhos se comportam como príncipes da República. Movido pelo sentimento de culpa de pai ausente, o genitor permissivo aprova tudo o que fazem, sem medir consequências.

O falso moralista coloca Deus acima de tudo, mas se esquece que Deus é amor e perdão. Sua fúria contra opositores e aqueles que discordam de suas ideias é implacável. Insuflado pelo gabinete do ódio, ele frita aliados e membros de sua equipe com requintes de torturador. Em vez de demitir sumariamente, prefere desgastar a vítima até a exaustão.

Bolsonaro se diz democrata, mas sempre atacou a imprensa que o critica. No recente 19 de abril, em frente ao quartel do Exército em Brasília, discursou para apoiadores que clamavam pela intervenção militar. No dia seguinte, tentando desdizer o que disse, declarou ser a própria Constituição – como fez Luis XIV ao afirmar que “l’Etat c’est moi”.

Paladino dos “bons costumes”, o pretenso salvador da pátria geralmente usa metáforas de cunho sexual, como namoro e casamento com esse ou aquele político. Num discurso sem pé nem cabeça e em tom vitimista, após a saída de Sérgio Moro, declarou ter aberto o coração para o ex-ministro e se queixou por não ter sido correspondido.

Ligações perigosas

Bolsonaro se orgulha da patente de capitão do Exército, mas foi processado pela corporação por insubordinação e terrorismo. Chegou a passar alguns dias no xadrez, antes de ser reformado. Ao que parece, seu fetiche pela farda esconde a frustração de um reles tenente que não chegou ao Estado Maior.

Quando disputava a presidência, jurou combater a corrupção a todo custo, mas fez acordo com o presidente petista do STF, Dias Toffoli, para blindar o filho Eduardo no escândalo das “rachadinhas” e nas suspeitas de ligações perigosas com milicianos. Agora, ele muda o comando da PF para livrar o zero dois, Carlos, das investigações sobre as fake news contra o STF. Além disso, tem o desplante de dizer que fake news é liberdade de informação. 

Ao falar em nova política, Bolsonaro demonstra não ter aprendido nada no seu tempo de congressista. Desde a Grécia antiga, a política sempre foi a mesma: nem velha, nem nova. É a arte da negociação em prol do bem comum. O que há de velho são políticos como ele e aqueles que quebraram o país – e que negociam até com o diabo para se manter no poder.

Diante dos fatos, uma coisa é certa: deslumbrado com a idolatria dos seus seguidores, o “mito” acredita ter sido “ungido” por suas qualidades e não pelo antipetismo decorrente dos escândalos das últimas décadas. Mas a História é implacável. Como diz a canção de Pablo Milanés e Chico Buarque, ela “atropela indiferente todo aquele que a negue”. O PT que o diga!

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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