07 Mai 2020 | domtotal.com

Cala boca já morreu

A política exige estômago para negociar até mesmo com o diabo

Presidente da República Jair Bolsonaro, durante assinatura do Termo de Posse do senhor Rolando Alexandre de Souza, Diretor-Geral da Polícia Federal
Presidente da República Jair Bolsonaro, durante assinatura do Termo de Posse do senhor Rolando Alexandre de Souza, Diretor-Geral da Polícia Federal (Isac Nóbrega/PR)

Por Jorge Fernando dos Santos

Quase sempre governado por fanfarrões ou ridículos tiranos, o Brasil nunca se livrou da vocação de republiqueta de bananas. O presidente Jair Bolsonaro que o diga, pois mistura as duas coisas. Indiferente às mortes provocadas pela Covid-19, apoia manifestações golpistas, fala mentiras e manda jornalistas calarem a boca.

Eleito com a promessa de combater a corrupção, ele agora se alia ao Centrão e quer transformar a PF numa Gestapo, para blindar os filhos contra investigações. Enquanto briga com os outros poderes e contraria o isolamento social, isola-se politicamente, inclusive das Forças Armadas.

A esquerda, por sua vez, se aproveita do caos para recuperar espaço junto à opinião pública. Em 1º de maio, a convite das centrais sindicais, FHC, Lula, Haddad, Dilma e Ciro Gomes falaram em nome da democracia. No entanto, devem estar felizes com o incêndio no circo e a nomeação de André Mendonça para a Justiça – o que põe em xeque a Lava Jato.

Enquanto isso, o presidente do Congresso, Rodrigo Maia (o Botafogo no propinoduto da Odebrecht) segura os pedidos de impeachment, alegando não ser este o melhor momento para tratar do assunto. Na verdade, ele teme a ação dos bolsominions e aguarda as negociações do pretenso “mito” com seus colegas do Centrão.

Merece aplauso as ações do STF frente às irresponsabilidades do caudilho. Contudo, não podemos nos esquecer do esforço de alguns ministros para proteger políticos e empresários corruptos. Diante das críticas ao Judiciário, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes chegaram ao desplante de ressuscitar a censura.

Os erros de Moro

Também não passa batido o erro de avaliação do ex-juiz Sérgio Moro, ao ter aceitado o cargo de ministro da Justiça. Supor ingenuidade seria o mesmo que acreditar que o coronavírus veio do espaço. Todo mundo é movido pela vaidade, raiz de todos os pecados, mas seria ignorância acreditar que o magistrado não tenha medido consequências.

Ao aceitar o cargo, Moro avalizou o novo governo, cujo controvertido presidente acredita ter sido “ungido” por suas supostas qualidades e não pelo antipetismo surgido no Mensalão e acirrado pela Lava Jato. E ninguém duvida que ele tenha feito isso em troca de uma vaga no STF. No entanto, sentiu-se traído e saiu do cargo atirando em defesa própria.

Da noite para o dia, o paladino dos brasileiros que rejeitam a corrupção passou a ser atacado em dois flancos. Além da esquerda radical (que não perdoa a condenação de Lula no caso do triplex do Guarujá), bolsonaristas orientados pelo gabinete do ódio querem assassinar sua reputação. Em outras palavras, trocaram o ex-juiz pelo condenado Roberto Jefferson.

Sérgio Moro cometerá um erro maior se concorrer à Presidência da República, em 2022. Se o fizer, assistiremos à aliança de seus inimigos na tentativa de destruí-lo de uma vez por todas. Surgiria uma tempestade de acusações e fake news como aquelas do site The Intercept Brasil, visando transformá-lo no cavalo azarão do páreo eleitoral.

Moro deveria seguir o exemplo de Joaquim Barbosa. Após os julgamentos do Mensalão, o ex-ministro do STF se retirou da vida pública na certeza de ter cumprido seu papel histórico. Ele sabe que a política exige estômago para negociar até mesmo com o diabo. Principalmente num país cujos partidos, em sua maioria, são quadrilhas organizadas.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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