06 Mai 2020 | domtotal.com

Realidade sem máscara

de estarrecer observar as enormes filas para receber auxílio do governo, sestas básicas ou tomar ônibus superlotados sem manter distanciamento e sem máscaras protetoras

As incertezas são tantas, que boa parte dos especialistas chega a desaconselhar o uso de mascaras protetoras, argumentando que o leigo não sabe usa-las
As incertezas são tantas, que boa parte dos especialistas chega a desaconselhar o uso de mascaras protetoras, argumentando que o leigo não sabe usa-las (Unsplash/ Claudio Schwarz)

Por Flávio Saliba

Não bastasse o estresse natural causado por pandemias como a do Covid-19, as incertezas sobre os métodos de combate à doença e a insistente discordância do chefe da nação com as medidas tomadas pelo Ministério da Saúde geram pânico e incentivam comportamentos que agravam o problema. Lavar as mãos, usar álcool gel, manter distância de um a dois metros de terceiros e, principalmente, não sair de casa parecem medidas corretas de controle da pandemia. Mas isto não basta.

Há que se testar, testar e testar, mas não há testes disponíveis, assim como não há respiradores suficientes e equipamentos básicos de proteção para os profissionais de saúde, razão pela qual médicos e enfermeiros contraem o vírus e se afastam de suas funções. Há notícia de que nada menos que cinquenta profissionais da saúde de um único hospital da capital mineira encontram-se infectados. Logo na cidade que, até então, era uma das poucas capitais pouco afetadas pela pandemia.

As incertezas são tantas, que boa parte dos especialistas chega a desaconselhar o uso de mascaras protetoras, argumentando que o leigo não sabe usa-las correndo o risco de tocar a máscara e o rosto e, portanto, contaminar-se. Ora, países asiáticos que melhor enfrentaram a pandemia são aqueles onde o uso de máscaras é uma prática corriqueira. É bem verdade que o seu uso não protege completamente, mas parece óbvio que ela minimiza o contágio.

Compreende-se que nos primeiros momentos se desaconselhasse o seu uso uma vez que esse produto, escasso no mercado, deveria destinar-se prioritariamente aos profissionais da saúde. Só mais recentemente o uso de máscaras pela população vem sendo preconizado. As próprias autoridades se renderam às evidências e passaram a recomendar a sua fabricação caseira ou, mesmo, o uso de lenços ou tecidos mais ou menos capazes e de proporcionar alguma proteção.

Em recente artigo, o filósofo Luiz Felipe Pondé ironiza que “não fazer quarentena é coisa de pobre, bolsonarista, ignorante e fumante”. Eu acrescentaria que não usar máscara, também. É de estarrecer observar as enormes filas para receber auxílio do governo, sestas básicas ou tomar ônibus superlotados sem manter distanciamento e sem máscaras protetoras. É obvio que as populações pobres não podem se dar ao luxo de fazer quarentena uma vez que sua própria sobrevivência depende do ganha pão diário.

Flávio Saliba
Formado em Ciências Sociais pela UFMG (1968), Doutor em Sociologia pela Universidade de Paris (1980), Pós-doutorado na Berkeley University (1994), Professor de Sociologia da UFMG. Livros publicados: 'O diálogo dos clássicos: divisão do trabalho e modernidade na Sociologia' (Ed. C/Arte, BH, 2004), 'História e Sociologia' (Ed. Autêntica, BH, 2007). Vários artigos publicados em revistas e jornais nacionais.
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