07 Mai 2020 | domtotal.com

Da pandemia ao pandemônio

Falta de medidas de proteção é apenas um detalhe da enorme crise na saúde, na economia e na vida política do país

A máscara é o mais elementar e o menos dispendioso de todos os equipamentos de proteção
A máscara é o mais elementar e o menos dispendioso de todos os equipamentos de proteção (Unsplash/Tai's Captures)

Por Flávio Saliba

No último artigo, comentei aqui neste espaço que a recomendação, pelas autoridades, do uso de máscaras protetoras contra o novo coronavírus veio com certo atraso. Acreditava-se que estas deveriam ser de uso exclusivo dos profissionais da saúde e de portadores do vírus.

Ora, como afirmar isto quando já se sabia que portadores assintomáticos também são transmissores do vírus? Como subestimar a importância do uso máscaras quando já se sabia que os impactos da pandemia foram menos catastróficos nos países asiáticos onde seu uso é amplamente difundido?

E mais, a máscara é o mais elementar e o menos dispendioso de todos os equipamentos de proteção. Pode ser facilmente confeccionada em casa com uma infinidade de tecidos, inclusive com retalhos de jeans, aliás, muito utilizado pelos profissionais da saúde até recentemente.

É de se estranhar que mesmo grandes cidades como São Paulo, onde o distanciamento social e a quarentena vêm sendo enfaticamente preconizados, só agora tornam obrigatório o uso de máscaras em transportes coletivos. É de arrepiar ver as intermináveis filas de ônibus, nas portas de bancos, hospitais e órgãos públicos sem manter o necessário distanciamento e sem uso de máscaras.

Mas isto é apenas um detalhe da enorme crise na saúde, na economia e na vida política do país, esta última claramente promovida pelo chefe da nação. Este se nega a seguir as recomendações das autoridades da saúde, notadamente a quarentena e o uso de máscaras, frequentando espaços públicos, cumprimentando e abraçando populares e opondo-se a governadores e prefeitos que fazem o dever de casa. Como se não bastasse, demitiu o ministro da Saúde e, mais recentemente, o ministro da Justiça por motivos alheios à pandemia, mergulhando o país num verdadeiro pandemônio.

Ironia das ironias, Bolsonaro parece ter sido abandonado inclusive por seu ídolo, Donald Trump, que declarou publicamente estar disposto a cancelar os últimos quatro voos semanais que ligam o Brasil aos Estados Unidos. A razão seria o avanço descontrolado da pandemia do coronavírus no Brasil onde, segundo ele, foram tomadas medidas menos eficazes que nos demais países sul-americanos.

Ora, Trump parece desconhecer que o número de mortos pelo coronavírus naquele país é dez vezes superior ao do Brasil e que, caso levadas à sério as medidas preconizadas pela OMS e por especialistas brasileiros o número de contaminados e mortos no país poderiam ser até vinte vezes inferiores aos registrados nos Estados Unidos.

“Lamento, mas o que você quer que eu faça?”, respondeu o chefe da nação aos repórteres  que o indagavam sobre a aceleração dos casos de morte e contaminação pelo coronavírs nos últimos dias. É realmente de se lamentar diríamos nós brasileiros.

Flávio Saliba
Formado em Ciências Sociais pela UFMG (1968), Doutor em Sociologia pela Universidade de Paris (1980), Pós-doutorado na Berkeley University (1994), Professor de Sociologia da UFMG. Livros publicados: 'O diálogo dos clássicos: divisão do trabalho e modernidade na Sociologia' (Ed. C/Arte, BH, 2004), 'História e Sociologia' (Ed. Autêntica, BH, 2007). Vários artigos publicados em revistas e jornais nacionais.
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