14 Mai 2020 | domtotal.com

Futuro incerto

A Covid-19 se tornou uma pedra no sapato da economia liberal

Governo Bolsonaro complica a situação do país diante do mundo
Governo Bolsonaro complica a situação do país diante do mundo (Marcos Corrêa/PR)

Por Jorge Fernando dos Santos

Outro dia recebi uma postagem espiritualista dizendo que Deus teria nos enviado o coronavírus para evitar o pior, que seria a Terceira Guerra Mundial. Não sou dado a misticismo nem a profecias. Baseado na História, acredito que nenhuma pandemia foi capaz de impedir outros males.

Na Idade Média, a Peste Bubônica ceifou um terço da população da Eurásia, mas não evitou que a Inquisição continuasse queimando hereges em praça pública. Já a Gripe Espanhola, surgida no final da Grande Guerra (1914-1918), matou quase 100 milhões de pessoas. No entanto, não impediu o conflito que teria início 20 anos depois, matando mais do que ela.

Na verdade, o quadro que se desenha para o pós-Covid-19 é, no mínimo, preocupante. Como já era previsto, a crise provocada pela doença está prejudicando a economia em vários países. Especialistas acreditam que teremos pela frente uma recessão global pior que aquela que se sucedeu ao crash da bolsa de Nova York, ocorrido em 1929.

Confronto ideológico

A crise dos anos 1930 foi um dos estopins da Segunda Guerra Mundial. Ao ser atingida pela onda de falências e cobranças vinda da América, a Alemanha começava a se recuperar dos prejuízos do conflito anterior. Com o aumento galopante da inflação e do desemprego, o nazismo conquistou as massas e Hitler foi eleito como salvador da pátria.

Uma onda nacionalista tomava conta do mundo, fazendo surgir ditaduras em vários países. Depois que os alemães romperam o pacto de não agressão com a Rússia, os soviéticos se uniram às democracias ocidentais para enfrentar o inimigo comum. Depois da vitória, o confronto ideológico entre os vencedores acabou por deflagrar a Guerra Fria.

A boa notícia é que, após a Covid-19, é provável que os mercados internos se fortaleçam, como ocorreu no Brasil a partir da Primeira Guerra. Com as importações interrompidas pelo conflito, a produção nacional voltou-se para a demanda doméstica. Esse processo empoderou os industriais paulistas, sepultou a política do café com leite, mas precipitou a Revolução de 1930.

Mudança de hábitos

O coronavírus nos impôs uma radical mudança de hábitos, a começar pelo isolamento social. O consumo diminuiu, a indústria reduziu a produção e o desemprego voltou a crescer. A Covid-19 se tornou uma pedra no sapato da economia liberal. Como ocorreu após o crash de 1929, somente uma política keynesiana de intervenção do Estado poderá evitar o pior.

Passada a pandemia – e só Deus sabe quando –, é quase certo que os países estarão voltados para os problemas internos e pouco afeitos à normalização imediata das relações internacionais. Haverá um clima de desconfiança no que diz respeito à eliminação do vírus, já que nem todos tomaram as medidas necessárias a tempo de retardar sua proliferação.

O Brasil, particularmente, deverá sofrer sérias consequências decorrentes do comportamento irresponsável do governo Bolsonaro. Além de estimular a quebra da quarentena, o presidente e sua equipe complicam o cenário com declarações infelizes contra a China, nossa principal parceira comercial. Além disso, comprometem cada vez mais a imagem do país perante o mundo.

A História nos mostra que o livre comércio entre as nações é o melhor caminho para se evitarem conflitos internacionais. Sem ele, a tendência dos países é o isolamento e a suspeita recíproca. Oxalá o coronavírus não prejudique a globalização. Ao colocar o interesse econômico acima do político, ela de fato tem ajudado a pacificar os povos.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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