21 Mai 2020 | domtotal.com

Hugo Chávez no espelho

O sonho de Bolsonaro é dar um xeque-mate na democracia

Bolsonaristas radicais se comportam como milicianos chavistas
Bolsonaristas radicais se comportam como milicianos chavistas (Uesley Marcelino/Reuters)

Por Jorge Fernando dos Santos

Quem duvida que Jair Bolsonaro possa tentar um autogolpe precisa rever a História. Getúlio Vargas comandava o governo revolucionário quando implantou o Estado Novo, em 1937. De inspiração fascista, começava ali o regime mais duro do período republicano.

Nem mesmo a ditadura iniciada em 1964 torturou e matou tanto quanto a polícia getulista, comandada por Filinto Müller – cujo sobrenome faz supor métodos iguais aos da Gestapo. Em 1968, em pleno regime miliar, seria a vez do general-presidente Costa e Silva dar um golpe dentro do golpe. A edição do AI-5 levaria o país de volta às trevas.

Sem o carisma de Vargas e a astúcia de Costa Silva, Bolsonaro não deixa de ser personalista e truculento. Sente-se cada vez mais acuado pelos fatos e isso pode levá-lo a querer fechar o Congresso, caso se veja ameaçado de impeachment. Aqueles que o subestimam deveriam se lembrar que o líder bolivariano Hugo Chávez também foi subestimado.

Carreatas da morte

Bolsonaro já confessou admiração por Chávez. A exemplo do coronel que comandou uma quartelada antes de se eleger presidente da Venezuela, ele ataca verbalmente a imprensa, o Congresso e a Suprema Corte. A diferença entre ambos é o lado do espelho. Um se alinhou à esquerda, tornando-se amigo de Fidel Castro. O outro é conservador, submisso a Donald Trump.

Pode parecer teoria da conspiração, mas, diferentemente do que pensam seus críticos mais ferrenhos, Bolsonaro não é um amador. Por trás da pose de fanfarrão está o ex-militar frustrado, cuja carreira no Exército foi bruscamente interrompida. Com 30 anos de vida pública, ele conheceu os intestinos da política nacional e aprendeu como a coisa funciona.    

Bolsonaristas radicais se comportam como milicianos chavistas, dispostos a tudo para defender o líder. Exemplo disso são as carreatas da morte e o acampamento montado em Brasília, numa sofisticada imitação das ocupações do MST. Agressões a enfermeiros e jornalistas mostram que não estão brincando. E pensar que diziam que o Brasil jamais seria uma Venezuela!

Jogadas perigosas

Numa estratégia semelhante à de Hugo Chávez, Bolsonaro faz o que Lula não quis ou não conseguiu fazer. Ele militariza cada vez mais o governo na clara intenção de garantir o apoio da caserna. Embora o oficialato das três armas jure fidelidade à Constituição Federal, o espírito de corpo das tropas não deve ser subestimado.

Enquanto isso, ao denunciar fatos que podem confirmar a ligação da famiglia Bolsonaro com milicianos cariocas, o empresário Paulo Marinho bateu mais um prego no caixão do governo. Jurando não fazer a “velha política” do toma lá dá cá, não é à toa que o chefe do clã se aliou ao Centrão e interferiu na Polícia Federal.

As demissões de Sérgio Moro e dos dois ministros da Saúde evidenciaram que há algo de podre no reino da insensatez. Indiferente às mortes causadas pelo Coronavírus e se dizendo preocupado com a economia, o presidente da República insiste no fim da quarentena e no uso indiscriminado de um remédio que causa perigosos efeitos colaterais.

Contudo, ao contrário do que disse Lula numa live infame, esta semana, a Covid-19 não ameaça o projeto bolsonarista de poder. Na verdade, a pandemia se tornou uma cortina de fumaça para as jogadas do caudilho. Como numa partida de xadrez igual à que Chávez jogou com a mão esquerda, o sonho de Bolsonaro é dar um xeque-mate na democracia.


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Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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