22 Mai 2020 | domtotal.com

Bolsonaro é continuação de Temer, e a economia vai mal por causa do Lula?

Apesar do erros do governo atual, população continua atribuindo cenário que vivemos aos anteriores

Há um núcleo duro de bolsonaristas na sociedade que não diminui
Há um núcleo duro de bolsonaristas na sociedade que não diminui (Allan White/ Fotos Públicas)

Por Marcel Farah

Qual é o problema desse país, porque as pessoas são tão facilmente levadas a crer em suposições incríveis?

A recente pesquisa XP/Ipespe mostra, confirmando a pesquisa CNT/MDA da semana passada, que a popularidade de Bolsonaro vem caindo frente ao crescimento de sua desaprovação.

Contudo, muitos analistas têm dito que este governo ainda tem apoio suficiente para se sustentar de pé.

Em primeiro, porque há um núcleo duro de bolsonaristas na sociedade que não diminui. A CNT/MDA mostrou que as avaliações do governo como ótimo aumentaram, mesmo que a soma entre bom+ótimo tenha diminuído. Em segundo, como alertado pela colunista do Valor, Maria Cristina Fernandes, pelo twitter, o auxílio emergencial de R$600,00, aprovado após muita pressão das esquerdas, tem sido atribuído ao Bolsonaro pela população.

Ou seja, por um motivo mais estrutural (digamos, a saída da ultra direita do armário) e por outros conjunturais (como a apropriação do mérito pelo auxílio), o governo vem mantendo sua força, apesar de estar em queda.

Outro fato revelado pela pesquisa XP/Ipespe é que os governos que mais levam a culpa pela situação econômica atual são os governos Lula e Dilma.

Mesmo que a crise tenha se aprofundado com o governo Temer, mesmo que o teto de gastos e a reforma trabalhista daquele governo tenham se revelado ineficazes, mesmo que as medidas de Paulo Guedes, durante o governo Bolsonaro sejam uma continuidade da trajetória neoliberal de Temer, os grandes culpados continua sendo Lula e Dilma.

A percepção da população contraria toda a lógica da disputa política. A grande razão pela qual Dilma foi derrubada é econômica. Nos governos petistas, o nível da renda do trabalho cresceu ao ponto de ameaçar as taxas de lucro dos patrões. As elites fizeram campanha descarada para aumentar o desemprego, ou reduzir salários (ou direitos trabalhistas). A primeira medida pós-golpe foi a precarização de direitos trabalhistas. Para que? Para aumentar o emprego? Não. Para reduzir os custos para patrões. Já que nem todo mundo pode ser um iFood, que tem trabalhadores sem arcar com direitos trabalhistas, que se reduzam os custos destes direitos.

Trata-se de uma visão unilateral do empresariado. Sem um mercado de trabalho rentável, o mercado de consumo (formado pelos mesmos trabalhadores/as) se fragiliza, e as compras diminuem. Assim, as empresas não têm para quem vender, pois, cada vez mais, sua clientela se reduz a à classe média. A própria classe média perde fôlego, é reduzida, em termos numéricos, pela retração do mercado de emprego.

De outro lado, os meios de comunicação (empresariais também) reproduzem um discurso de que a destruição de direitos seria benéfica para a economia e para as classes trabalhadoras, já que a “legislação é muito engessada”, buscando justificar as mudanças.

O resultado é o que vimos no período exatamente anterior à pandemia, ainda em março, desemprego e uma economia rastejante. Àquela época já tínhamos uma taxa de desemprego na casa dos 11%, uma taxa de desalento atingindo 23 milhões de pessoas, o real já era a moeda que mais perdia valor no mundo… Enfim, o desastre econômico já estava anunciado.

A Covid-19 piorou todo o cenário, mas, não é exagero dizer que a contribuição do governo Bolsonaro propicia a pior peste da qual já tivemos notícia no Brasil.

Caminhamos a passos largos para sermos o epicentro da pandemia no mundo, e o governo se esforça para atingir este objetivo.

Mesmo assim, nossa população continua a colocar a culpa nos governos petistas. Por que será?

Marcel Farah
Educador Popular
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