22 Mai 2020 | domtotal.com

Privatização da moral

Privatização da moral, resultante da ideologia bur­guesa, contribui para camuflar as verdadeiras causas do pecado social

Privatização da moral, resultante da ideologia burguesa, contribui para camuflar as verdadeiras causas do pecado social
Privatização da moral, resultante da ideologia burguesa, contribui para camuflar as verdadeiras causas do pecado social (Michael Dziedzic/ Unsplash)

Por Frei Betto

A privatização da moral é uma característica típica das sociedades juridicamente repressivas e economicamente liberais. O cidadão não tem o direito de fugir ao padrão ético predomi­nante nas relações sociais reguladas e regulamentadas. Entre­tanto, essa mesma sociedade lhe oferece toda sorte de imoralidades na forma de prostituição organizada, propaganda sensual, espetáculos oníricos e literatura pornográfica. Tudo isso é per­mitido e juridicamente regulamentado pela mesma ordem social que defende a preservação da família monogâmica e reprime a delinquência juvenil. Dessa indústria da luxúria qualquer um pode usufruir, desde que consiga preservar o anonimato.

Há nisso uma aparente contradição, logo anulada se considerarmos que, jurídica e economicamente, essa ordem social tem um só objetivo: a acumulação de capital em mãos da minoria. Se não houvesse repressão individual, todos poderiam satisfazer seus apetites como quisessem e onde bem entendessem. A indústria da luxúria iria à falência. Mas quanto maior o puritanismo, como na tradição anglossaxônica, tanto mais rendosa é essa indústria, capaz de oferecer milhares de empregos e subempregos e incentivar o turismo. Na lei da oferta e da procura, o que se encontra com maior dificuldade pode ser oferecido por um preço maior.

Por outro lado, a imoralidade vigente tem a função de encobrir a raiz do pecado social estruturado nos próprios meca­nismos de produção e consumo dessa sociedade baseada na divisão de classes sociais, na apropriação da mais‑valia produ­zida pelo trabalho, na concorrência e no lucro. A supressão dessa raiz, que produz a marginalidade, e de seus frutos mais notó­rios, como a prostituição, implicaria a declaração de falência dessa mesma sociedade, o que não interessa àqueles que detêm em suas mãos as instituições jurídicas e a engrenagem econô­mica que asseguram a sua posição privilegiada.

Essa privatização da moral, resultante da ideologia bur­guesa, contribui para camuflar as verdadeiras causas do pecado social. Cria‑se uma contradição entre a moral que individual­mente as pessoas praticam e a moral que socialmente elas aceitam. A dona de casa não é capaz de espancar a empregada doméstica que deixou cair a louça. Seria um retrocesso à escravidão. No entanto, é capaz de pagar o menos possível para poder contar com essa empregada trabalhando o mais possível. O religioso não se armaria de um cabo de vassoura para expul­sar o pobre que bate à sua porta. Seria uma escandalosa negação de todos os seus bons propósitos. Entretanto, sua congregação é capaz de manter uma escola que não propicia instrução senão aos mais abastados e, em suas comunidades, são os mais ricos, e não os trabalhadores, que se sentem à vontade. Essa flagrante contradição é reduzida, tanto na cons­ciência da dona de casa quanto na do religioso, pelo consenso ideológico vigente de que o social escapa à responsabilidade pessoal de quem não participa diretamente do poder.

A ambiguidade moral permite a certos cristãos adotarem uma moral de intenção desvinculada da prática moral. Para estes, alguém é tido como "bom" e "justo" não por viver de fato descomprometido com a injustiça, mas sim por revelar, na polidez de suas palavras, estar dotado de "boas intenções". Essa moral alimenta, na pessoa, a flagrante contradição entre esfera de vida subjetiva e sua esfera objetiva. Uma coisa é aquilo que ela pensa; outra, o que faz. O que ela diz não corres­ponde objetivamente ao modo como vive.

Na prática, esse tipo de cristão pode ser tão injusto e opressor quanto outros homens e desfrutar dos mesmos cargos, usufruir dos mesmos privilégios, adotar os mesmos costumes ‑ desde que seja diferente deles nas intenções...

A "caridade" decorrente dessa ambiguidade moral per­tence sobretudo à esfera dos sentimentos. É um "querer bem" aos outros que nada tem a ver com as estruturas e as relações sociais marcadas pela iniquidade. Uma "caridade" polidamente educada, socialmente conveniente, farisaicamente encobridora de um egoísmo ferrenho. Nada é feito além do estreito círculo das relações interpessoais. Aquele que "quer bem" ao outro, interessa‑se por ele enquanto não se sente desafiado ou ameaçado. Quando amar mais o próximo começa a exigir, de fato, amar menos a si mesmo e arriscar‑se pelo outro, então encontra‑se logo uma maneira de justificar essa mesma postura omissa que tiveram o sacerdote e o levita na parábola do Bom Samaritano (Lucas 10, 25‑37).

Frei Betto
é escritor e religioso dominicano. Recebeu vários prêmios por sua atuação em prol dos direitos humanos e a favor dos movimentos populares. Foi assessor especial da Presidência da República entre 2003 e 2004. É autor de "A Obra do Artista – uma visão holística do Universo", "Um homem chamado Jesus", "Batismo de Sangue", "A Mosca Azul", entre outros.
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