27 Mai 2020 | domtotal.com

Basta de remédios que são novos venenos

Diante das revelações da reunião ministerial estarrecedora, já em meio à pandemia, fica claro que a intenção do presidente e de seus ministros não é a preservação da vida

Reunião do presidente Bolsonaro, ministros e presidentes de instituições que acontece no dia 22 de abril de 2020
Reunião do presidente Bolsonaro, ministros e presidentes de instituições que acontece no dia 22 de abril de 2020 (Marcos Corrêa/PR)

Por Gilvander Moreira

Muitas crises estão afetando as pessoas e todos os outros seres vivos que habitam nossa Casa Comum, o planeta Terra. A crise ecológica já acendeu o sinal vermelho há muito tempo. “O mundo está em chamas”, já dizia, ainda no século 16, Teresa de Jesus, espanhola e freira carmelita, uma das três mulheres consideradas doutoras pela Igreja. O que acontece é que do século 16 para cá, o modo de produção industrial e os estilos de vida impostos pelo modelo capitalista e tecnocrático têm agravado, em progressão geométrica, os problemas socioambientais no planeta e contribuído para aprofundar a injustiça socioambiental. “Não brinque com fogo”, dizia a mamãe Leontina. Tornou-se urgente interrompermos a espiral de autodestruição da humanidade e de todo o planeta Terra.

Com o auxílio dos omissos, dos cúmplices e dos coniventes, o capitalismo e os capitalistas causaram – e continuam aprofundando – a maior crise ecológica de todos os tempos.  As mineradoras com suas máquinas pesadas, cada vez mais potentes, como dragões cuspindo fogo, dizimam milhões de nascentes d’água pelo mundo afora e seguem demolindo montanhas, removendo terra e minerais diversos e em seu lugar deixando profundas crateras. 

Grandes empresas do agronegócio ampliam as monoculturas de eucalipto, soja, café e cana, para citar apenas algumas e, assim, deixam um rastro de destruição nunca antes visto. O esgotamento dos solos férteis e a poluição ou mau uso das águas representam riscos para a segurança e soberania alimentar da humanidade. A devastação dos biomas – Cerrado, Mata Atlântica, Amazônia, Caatinga, Pantanal e Pampas – gera processos de desertificação de territórios cada vez maiores. 

Megaempresas do hidronegócio transformaram a água em mercadoria. Um litro de água em alguns lugares, como aeroportos, custa um absurdo. No mercado internacional água vale muito mais que o minério e, mesmo assim, contraditoriamente, a ganância cega dos capitalistas não os deixa perceber que biomas preservados nos oferecem gratuitamente safras infinitas deste líquido vital – fonte de vida – enquanto que o minério só é extraído uma única vez e, para sua retirada, se promove a devastação das nascentes.

Nesse contexto dramático, que interpela a consciência de todas as pessoas de boa vontade, faz-se necessário resgatar a profecia do Concílio Vaticano 2º e a opção da Igreja afrolatíndia pelos pobres e pelos jovens. Imprescindível ouvirmos os clamores de todos os seres vivos injustiçados, entre os quais encontra-se a Terra, as nascentes e toda a biodiversidade. Não podemos tardar mais em levar a sério o testemunho e os ensinamentos do papa Francisco na exortação apostólica A alegria do Evangelho, nos seus discursos aos movimentos sociais e na encíclica Laudato Si’ (Louvado sejas!), sobre o cuidado da Casa Comum.

O cap. 4 da Exortação apostólica do papa Francisco A alegria do Evangelho (Evangelii Gaudium, em latim) trata da dimensão social e econômica da fé cristã. Prestemos atenção a algumas afirmações do papa Francisco: “Se a dimensão social da evangelização não for devidamente explicitada, corre-se o risco de desfigurar o sentido autêntico e integral da missão evangelizadora” (EG n. 176). É traição ao Evangelho de Jesus Cristo pensar que a fé cristã diz respeito apenas à dimensão espiritual do nosso ser e existir. 

O papa Francisco puxa a orelha dos espiritualistas, moralistas e fundamentalistas que deturpam a missão da Igreja. Diz ele em alto e bom tom: “Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa em um emaranhado de obsessões e procedimentos” (EG n. 49).

Além de ser pobre e para os pobres, a Igreja sonhada e gestada por Francisco deve ter a coragem de denunciar o atual sistema econômico, "injusto na sua raiz" (EG n. 59). Como disse, a Igreja "não pode nem deve ficar à margem da luta pela justiça" (EG n. 183). "Saiam para missão transformadora!" é a essência da mensagem que o papa Francisco está enviando aos bispos, padres e membros das comunidades cristãs, desde o início do seu pontificado. Saiam das suas cômodas estruturas eclesiais burguesas e do caloroso círculo dos convencidos, anunciem o Evangelho nas periferias das cidades, aos marginalizados pela sociedade, aos pobres, aos injustiçados!

Às questões sociais, o papa Francisco dedica o segundo e o quarto capítulos da exortação apostólica A alegria do Evangelho. Critica o "fetichismo do dinheiro" e "a ditadura de uma economia sem rosto e sem um objetivo verdadeiramente humano", versão nova e implacável da "adoração do antigo bezerro de ouro". Francisco critica o atual sistema econômico: "esta economia que mata" porque prevalece a "lei do mais forte" e promove a cultura do "ser humano descartável" que criou "algo novo" e dramático: "Os excluídos, mais do que 'explorados', são considerados resíduos, 'sobras'" (EG n. 53). 

Enquanto não se resolverem radicalmente os problemas dos pobres, renunciando "à autonomia absoluta dos mercados e da especulação financeira e atacando as causas estruturais da desigualdade social – insiste –, não se resolverão os problemas do mundo e, em definitivo, problema algum", alerta o papa Francisco. Ele também indica que as raízes dos males sociais estão na "desigualdade social”.

A Igreja não pode ficar indiferente a tais injustiças. Papa Francisco diz profeticamente: “A economia não pode mais recorrer a remédios que são um novo veneno, como quando se pretende aumentar a rentabilidade reduzindo o mercado de trabalho e criando assim novos excluídos” (EG n. 204). Na encíclica Laudato Si’, o papa Francisco dedica muitas páginas à denúncia da "nova tirania invisível, às vezes virtual" em que vivemos, um "mercado divinizado", onde reinam a "especulação financeira", a "corrupção ramificada", a "evasão fiscal egoísta" (Laudato Si', n. 56).

Diante das revelações da reunião ministerial estarrecedora, já em meio à pandemia, ocorrida dia 22 de abril de 2020, em Brasília, fica claro que a intenção do presidente e de seus ministros não é a preservação da vida. Antes, sim, querem a garantia de privilégios de cunho pessoal e corporativo, a continuidade de um projeto de saque dos bens naturais e do entreguismo do patrimônio público via privatizações ou concessões de empresas públicas como, por exemplo, o Banco do Brasil, tal como citado pelo ministro da economia na referida reunião. 

Ficou claro o discurso de ódio e de insensibilidade diante do povo que está submetido às agruras da pandemia, o saque de direitos e de uma política econômica que privilegia os interesses dos banqueiros. Posturas odiosas e execráveis foram vomitadas e recheadas por 37 palavrões proferidos na reunião, 29 deles pelo presidente que, inclusive, ameaçou de forma clara e evidente trocar a chefia da Polícia Federal para barrar investigações de familiares e amigos. 

Também nos saltou aos olhos os dizeres estarrecedores de vários ministros, entre os quais o ministro Ricardo Salles, que, na prática, atua contra o Meio Ambiente. Para espanto de todo o povo, Salles disse: "A oportunidade que nós temos, que a imprensa está nos dando um pouco de alívio nos outros temas, é passar as reformas infralegais de desregulamentação, simplificação, todas as reformas..."

Podemos notar que a má intenção do ministro em pôr em prática seu projeto de morte está sustentada em duas muletas: a primeira é aproveitar da comoção nacional causada pela pandemia do novo coronavírus, que ocupa boa parte dos noticiários, para avançar com a devastação do meio ambiente; a segunda é aproveitar de um momento de excepcionalidade do direito que deveria garantir o direito à vida, para exatamente ferir de morte as condições de vida, exigindo uma desregulamentação infralegal, com potencial de comprometer a existência das atuais  e futuras gerações. 

Não satisfeito, o ministro deixou as pessoas de boa vontade e as instituições democráticas estarrecidas, ao bradar seu plano macabro para devastar o meio ambiente em conluio com os grandes interesses econômicos: “Então, [...] porque só fala de Covid e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas. [...]. Agora é hora de unir esforços pra dar de baciada a simplificação”.

O ministro do Meio Ambiente quer aproveitar o momento de luto e atenção da imprensa à pandemia para acentuar seu projeto de morte: saquear os bens naturais que são necessários para garantir as condições de vida do povo e de toda a biodiversidade. 

Essa postura do anti-ministro do Meio Ambiente é gravíssima e intolerável, pois revela falta de ética, falta de transparência, interesses sombrios e incompatibilidade moral para ocupar um cargo tão importante para o presente e futuro do povo brasileiro e de toda sócio-biodiversidade. “Mudar e simplificar” quais regras para favorecer quem? O que a opinião pública não deve saber? O anti-ministro Ricardo Salles foi condenado judicialmente em primeira instância por improbidade administrativa quando era secretário de Meio Ambiente do estado de São Paulo.

O ministro da Educação, Abraham Weintraub, na prática, ministro contra a Educação, afirmou durante a repugnante reunião ministerial: “Odeio o termo povos indígenas, odeio esse termo, odeio. Odeio povos ciganos”, bradou o ministro cuspindo ódio. E se referiu aos ministros do Supremo Tribunal Federal chamando-os de vagabundos chegando a dizer “eles devem ser presos”.

As falas e posturas vergonhosas e repugnantes na reunião ministerial apenas evidenciam o que já era ressaltado por muitas pessoas: a insensibilidade do desgoverno federal com o direito à vida. Não dá mais para tolerar as políticas neoliberais que, na prática, são recolonizadoras e também não dá mais para tolerar quem privatiza a fé cristã, amputando a dimensão social do Evangelho de Jesus Cristo. 

A questão religiosa está umbilicalmente ligada aos projetos políticos fascistas e devastadores de direitos e destruidores do meio ambiente, pois normalmente quem, religiosamente, é intimista, fundamentalista e moralista, é também apoiador do desgoverno federal. Enfim, quem privatiza a fé cristã para promover a opressora teologia da prosperidade persegue também quem luta pela superação dos desmandos políticos da necropolítica. Por isso, basta de remédios que são novos venenos, sejam eles na religião ou na política. 

Gratidão à Carmem Imaculada de Brito, doutora em Sociologia Política pela UENF, que fez a revisão deste texto

1 - Capitalismo como religião opressora, por Leonardo Péricles, do MLB e da UP. 17/6/2019


2 - Jesus Cristo anuncia o "Reino dos Céus"; o capitalismo como religião, o império/violência. Vídeo 1 - 17/ 6/2019.


3 - Palavra Ética, na TVC/BH, c/ Frei Cláudio van Balen: Deus, Páscoa e Religião. 12/04/14


4 - Desmatamento feito no Brasil em 2019: 99% foi ilegal - "Fantástico" - Rede Globo - 24/5/2020


5 - Ameaças, milícia e morte: a nova e velha cara do Velho Chico no norte de Minas Gerais. Grilagem de terras.


Gilvander Moreira
é frei e padre da Ordem dos carmelitas; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma, Itália; doutor em Educação pela FAE/UFMG; assessor da CPT, CEBI, CEBs, SAB e Ocupações Urbanas; professor de “Direitos Humanos e Movimentos Populares” em curso de pós-graduação do IDH, em Belo Horizonte, MG, autor de livros e artigos.
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