28 Mai 2020 | domtotal.com

O brasileiro que lutou pela paz

Netflix exibe dois filmes sobre a trajetória de Sérgio Vieira de Mello

Wagner Moura tem excelente atuação no papel do diplomata da ONU
Wagner Moura tem excelente atuação no papel do diplomata da ONU (Wilson Dias/ABr/ Netflix)

Por Jorge Fernando dos Santos

Dois filmes exibidos pela Netflix narram a vida e a morte do diplomata Sérgio Vieira de Mello. Vale fazer maratona para assisti-los, sobretudo no presente momento, quando a autoestima do brasileiro anda em baixa devido à crise política, ao Coronavírus e seus reflexos na economia.

O primeiro é um documentário da HBO, de 2009. O segundo, concluído este ano, apresenta uma narrativa romanesca com ares de ficção. Os dois têm o nome de Sergio e contam a história do brasileiro morto em 19 de agosto de 2003, após a explosão de um caminhão-bomba da Al Qaeda em frente ao Hotel Canal, sede da ONU em Bagdá.

Adaptados do livro O homem que queria salvar o mundo, de Samantha Power, os dois filmes foram dirigidos pelo californiano Greg Barker. O documentário apresenta cenas dramáticas e vários depoimentos, inclusive da biógrafa e dos dois soldados que tentaram tirar Sérgio dos escombros onde ele morreu após algumas horas de agonia.  

Já o longa-metragem, produzido pela própria Netflix, é protagonizado por Wagner Moura em sua melhor performance depois do Capitão Nascimento. A atriz cubana Ana de Armas interpreta a argentina Carolina Larriera, companheira de Sérgio e sobrevivente do ataque terrorista que o matou.

Influência paterna

Sérgio Vieira de Mello foi uma daquelas figuras que nos fazem acreditar que a humanidade ainda pode dar certo. Nascido no Rio, em 15 de março de 1948, ele era filho de Gilda dos Santos e Arnaldo Vieira de Mello, um diplomata que seria aposentado compulsoriamente pelo regime militar.

Desde a infância, acompanhou o pai em suas missões pelo mundo. A família morou em vários países e ele acabou estudando Filosofia na Sorbonne. Quando residia em Paris, participou dos protestos estudantis de 1968. No ano seguinte, enquanto o velho era afastado da diplomacia brasileira, o jovem de 22 anos tornava-se funcionário da ONU, em Genebra. 

Sérgio passou a maior parte de sua vida trabalhando no Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, cumprindo missões humanitárias e pela manutenção da paz mundial. Serviu em Bangladesh durante a independência do país, em 1971. Serviu no Sudão e no Chipre, após a invasão turca de 1974. Atuou no Paquistão e na América Latina.

Durante quatro anos, ele coordenou operações da ONU em Moçambique, no período da guerra civil deflagrada após a independência, em 1975. Foi nomeado em 1981 para o cargo de conselheiro político sênior das forças de paz no Líbano, mas se decepcionou com a missão devido aos sucessivos ataques do Hezbollah contra Israel – estopim da Guerra do Líbano.

Lições de uma vida

O diplomata também serviu no Camboja, como diretor do repatriamento da Autoridade da ONU. Foi o único representante da entidade a negociar com as lideranças do Khmer Vermelho, o sanguinário grupo comunista responsável pela morte de 2 milhões de cambojanos.

Sérgio era charmoso, carismático e destemido. Entre outras missões em regiões de conflito, esteve na Croácia e na Bósnia e Herzegovina durante as guerras na ex-Iugoslávia. Já no cargo de secretário-geral-adjunto para Assuntos Humanitários, tornou-se o primeiro brasileiro a galgar o alto escalão da ONU, com atuações decisivas no Kosovo, Ruanda e Timor-Leste.

Cotado para suceder ao amigo Kofi Annan no cargo de secretário-geral das Nações Unidas, o diplomata carioca era o principal alvo do atentado que lhe tirou a vida e a de outras 22 pessoas, deixando mais de 150 feridos. Fora jurado de morte por Osama bin Laden devido à sua decisiva contribuição para a independência do Timor.  

Os filmes de Greg Barker lhe fazem justiça e são especialmente recomendados àqueles que trabalham ou pretendem trabalhar na diplomacia. A começar pelo chanceler Ernesto Araújo, cujas declarações irresponsáveis contra a China podem comprometer as relações do Brasil com seu maior parceiro comercial. Traçando as devidas comparações, é fácil concluir que já não se fazem diplomatas como antigamente.


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Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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