04 Jun 2020 | domtotal.com

Pinochávez do Planalto

As crises política e sanitária desenham um futuro tenebroso para todos nós

Bolsonaro incentiva manifestações antidemocráticas a seu favor
Bolsonaro incentiva manifestações antidemocráticas a seu favor (Ueslei Marcelino/Reuters)

Jorge Fernando dos Santos

Há duas semanas, comparei Bolsonaro ao coronel venezuelano Hugo Chávez, que atraiu militares para o seu projeto bolivariano de poder. Agora, quero lembrar sua admiração também pelo ditador chileno Augusto Pinochet. Seu estilo autoritário mistura os dois exemplos, o que faz dele uma espécie de Pinochávez do Planalto.

Assim que a “gripezinha” começou a dizimar brasileiros em números equivalentes a boeings lotados, Bolsonaro surtou, pois viu seu projeto de governo se esfarelar feito um castelo de areia. Com atitudes e declarações estapafúrdias, bem como as ações do “gabinete do ódio” comandado pelo filho Carlos, ele tenta criar o caos e as condições ideais para o autogolpe. 

Neste ponto, vale abrir parênteses para lembrar que o esquema de Fake News chefiado pelo 02 se assemelha muito à ação dos aloprados do PT. Como revela o delegado Romeu Tuma Júnior no livro Assassinato de reputações, a perseguição sistemática a adversários de Lula e seus partidários formatou a rede de blogueiros cuja função era desmoralizar opositores e rechaçar críticas aos governos petistas.

Passa boi e boiada

Como já é sabido, a reunião de 22 de abril – dia dos 520 anos da chegada de Cabral a Pindorama – evidenciou a insanidade do governo. No vídeo liberado pelo ministro do STF Celso de Melo, Pinochávez profere nada menos que 37 palavrões. E é bom salientar que o mesmo juiz mandou investigar Eduardo, seu filho 03, por repetidas declarações que atentam contra a Lei de Segurança Nacional.

Se o vídeo não comprova em detalhes as denúncias do ex-ministro Sérgio Moro – a não ser pelo olhar fulminante que lhe é dirigido pelo chefe enquanto reclama dos serviços de informação –, o episódio desnudou de uma vez por todas a mediocridade do estafe. Alguns ministros dão a impressão de estar disputando um campeonato de puxa-saquismo, falta de ética e decoro.

Entre os disparates do ministro da “deseducação”, Abraham Weintraub, e da ministra Damares Alves – ambos pedindo a prisão de governadores e membros do STF –, o campeão em desfaçatez é Ricardo Salles. Na maior cara dura, o homem do Meio Ambiente sugere aproveitar a pandemia para furar as normas ambientais e “passar a boiada” pela porteira sem que ninguém perceba.

Convém lembrar que Salles é investigado pelo Ministério Público de São Paulo por sonegação fiscal e lavagem de dinheiro. Segundo o noticiário, ele teria repassado R$ 2,7 milhões da conta de seu escritório para sua conta pessoal, entre 2014 e 2017, época em que trabalhava no governo Geraldo Alckmim (PSDB).

Até tu, Trump?

Mas nem tudo anda conforme os planos de Pinochávez. Após comemorar a ação da PF contra o governador do Rio, Wilson Witzel, ele se surpreendeu ao saber que a mesma polícia cumpria mandados de busca e apreensão nas investigações das Fake News. Sobrou até para o condenado Roberto Jefferson, negociador do Centrão na tentativa de se evitar um possível processo de impeachment.

Bem fizeram os veículos de imprensa em suspender a cobertura das falas matutinas do presidente. O objetivo ali era claramente constranger os jornalistas, quase sempre vaiados pela claque de adoradores do “mito”. O que eram entrevistas se tornaram monólogos de um governante obtuso, que militariza o governo, aposta na ruptura e incentiva manifestações antidemocráticas a seu favor.

O mais lamentável, no entanto, é saber que as trapalhadas de Bolsonaro estão isolando o Brasil da comunidade internacional. Até mesmo seu ídolo Donald Trump deu-lhe uma banana, ao proibir o desembarque de brasileiros em solo americano devido ao descontrole da pandemia em nosso país. Pelo visto, as crises política e sanitária desenham um futuro tenebroso para todos nós.


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Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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