18 Jun 2020 | domtotal.com

Equívocos do anacronismo

Não se pode apagar a memória dos povos sem colocar em risco a democracia e a própria causa igualitária

No dia 7 de junho, manifestantes escreveram a frase 'ele era racista' em uma estátua de Churchill no centro de Londres
No dia 7 de junho, manifestantes escreveram a frase 'ele era racista' em uma estátua de Churchill no centro de Londres (Isabel Infantes/AFP)

Jorge Fernando dos Santos

O assassinato do negro americano George Floyd – covardemente asfixiado por um policial branco em 25 de maio, na cidade de Mineapolis, nos EUA – provocou protestos contra o racismo em vários países. Em alguns lugares, monumentos foram destruídos ou vandalizados. Esse detalhe reacendeu a discussão sobre os limites do revisionismo histórico.

No afã de reescrever a História, ativistas ingleses picharam até mesmo uma estátua de Winston Churchill. Provavelmente não levaram em conta o fato de o ex-primeiro-ministro britânico ter sido a primeira voz a alertar o mundo sobre as intenções de Hitler. Ele foi também um dos líderes mais importantes da luta contra o nazismo.

Estátuas de Cristóvão Colombo foram depredadas nos EUA. No entanto, se o navegador genovês não tivesse chegado ao Caribe, aqueles que atacaram seus monumentos certamente nem teriam nascido. Vale lembrar que a Igreja abençoou a escravidão e a conquista do Novo Mundo. A Europa teve no colonialismo a base do seu desenvolvimento. Seria sensato incendiar o Vaticano ou bombardear o continente europeu, tantos anos depois?

Esses episódios refletem o anacronismo do “politicamente correto”. No combate à intolerância, radicais muitas vezes se tornam intolerantes. A ambiguidade é uma das inegáveis características humanas. No entanto, ninguém mereceu monumento por ter sido escravista, mas por suas contribuições políticas, científicas e/ou culturais à humanidade.

E o vento levou...

Se fecharmos os olhos aos excessos do revisionismo, correremos o risco de ver igrejas e museus destruídos. Foi o que fizeram os talibãs ao implodirem os Budas de Bamiyan, num ato de intolerância e barbárie. Muitas figuras retratadas ao longo dos séculos foram inquisidores, reis ou conquistadores, mas isso não invalida a obra de arte como testemunho de seu tempo.

No auge dos recentes protestos, o roteirista de 12 anos de escravidão, John Ridley, pediu a retirada do filme E o vento levou... das plataformas que o exibiam. O clássico hollywoodiano de 1939 mostra a Guerra de Secessão sob o prisma dos confederados. Contudo, não consta que espectadores tenham se tornado escravistas depois de assisti-lo.

Feministas desqualificam o pintor Paul Gauguin por sua relação com jovens nativas do Taiti, país no qual terminou os seus dias. Pablo Picasso, por sua vez, é questionável por seu machismo. O mesmo ocorre com o escultor Auguste Rodin, que abusava de sua parceira, Camille Claudel. Seria justo destruir as obras desses artistas?

Monteiro Lobato foi acusado de ser racista. Padre Vieira defendeua escravidão num dos seus sermões. Celine, Shaw, Eliot e Pound foram simpáticos ao nazismo. Sartre e Simone de Beauvoir apoiaram o stalinismo e a revolução cubana – que fuzilava adversários e confinava gays na Isla de la Juventud. Deveríamos queimar os livros desses autores?

Zumbi dos Palmares

Até que ponto atitudes pessoais de um artista, cientista ou empreendedor comprometeriam sua obra? Se não fosse Wernher von Brown, construtor das bombas voadoras de Hitler, dificilmente os americanos teriam chegado à Lua. E se Albert Sabin tivesse sido racista, deveríamos proibir a vacina do Zé Gotinha? Certamente que não!

Sob Bolsonaro, corremos o risco de ver novamente proibidos escritores como Brecht, Gorki, Sartre, Graciliano e Jorge Amado pelo simples fato de terem sido comunistas. Conheço gente que se desfez dos discos de Chico Buarque por discordar do seu apoio incondicional a Lula. Mas isso não diminui em nada o valor de sua obra.

Muitos personagens da História dificilmente passariam pelo crivo dos nossos dias. No entanto, como não preservar a memória dos pais da pátria americana ou dos inconfidentes mineiros, embora todos eles tivessem escravos?

No livro Escravidão volume 1, Laurentino Gomes revela que o próprio Zumbi dos Palmares tinha escravos – o que não diminui seu valor simbólico na luta contra o racismo. Afinal, o homem é produto do seu tempo e não deve ser julgado sob critérios anacrônicos ou fora de contexto.

Destruir monumentos e obras de arte remonta à patética atmosfera do romance 1984, do inglês George Orwell. Que se afixem placas nas estátuas com informações sobre os homenageados – sem omitir seus pecados mortais. É legítimo rever a História, mas não se pode apagar a memória dos povos sem colocar em risco a democracia e a própria causa igualitária.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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