02 Jul 2020 | domtotal.com

Bolsonaro e as pragas do Egito

Como diria o mais otimista dos pessimistas, no Brasil nada é tão ruim que não possa piorar

No início da transmissão do dia 25 de junho, Bolsonaro pediu para o presidente da Embratur, Gilson Machado, tocar na sanfona uma Ave Maria em homenagem aos mortos pela Covid-19
No início da transmissão do dia 25 de junho, Bolsonaro pediu para o presidente da Embratur, Gilson Machado, tocar na sanfona uma Ave Maria em homenagem aos mortos pela Covid-19 (Reprodução Facebook)

Por Jorge Fernando dos Santos

Desde a posse de Jair Bolsonaro na Presidência da República, o Brasil vem enfrentando calamidades que lembram as dez pragas do Egito. Primeiro foi o rompimento da Barragem da Vale, em Brumadinho. A tragédia, todo mundo se lembra, ocorreu em janeiro do ano passado – 24 dias após a posse do novo governo –, deixando 259 mortos e 11 desaparecidos.

No seu primeiro ano de mandato, depois de visitar vários países, Bolsonaro se meteu numa grande polêmica sobre a Amazônia. As queimadas na maior floresta tropical do mundo cresceram além da conta, enquanto ele cortava recursos de ONGs internacionais do meio ambiente. Ecologistas, a ONU e até o Vaticano o criticaram duramente por isso.

No verão passado, estados da região Sudeste – particularmente Minas Gerais, Espírito Santo e São Paulo – foram arrasados pela temporada de chuvas mais violenta das últimas décadas. Em várias cidades, inclusive Belo Horizonte, muita gente perdeu a vida e milhares ficaram desabrigados.

Tempos de pandemia

A lama das enchentes nem havia secado, quando surgiram os primeiros casos de Covid-19 no país. Subestimada pelo presidente, a "gripezinha" não demorou a sair de controle. A bem da verdade, foi ele quem perdeu o controle.

Em vez de assumir comandando na luta contra o Coronavírus, Bolsonaro brigou com governadores e demitiu dois ministros da Saúde. Como se estivéssemos numa guerra de fato, lotou o Ministério (e o governo) de militares – que entendem pouco ou quase nada de medicina.

Somente na semana passada foi que o presidente se lembrou de homenagear as vítimas do coronavírus. Em vez de fazer um pronunciamento sério, protagonizou uma live patética, com um sanfoneiro desentoando a Ave Maria e Paulo Guedes fazendo cara de paisagem.

Até agora, cerca de 60 mil brasileiros morreram de Covid-19. O Brasil é o segundo país no ranking de infectados, atrás apenas dos EUA. Estamos proibidos de entrar em território americano e também na União Europeia. Para complicar o quadro, a China suspendeu a compra de carne brasileira.

Bozinho paz e amor

Em plena pandemia, Bolsonaro passou a instigar seus apoiadores contra as instituições democráticas. E só deu trégua depois de ver o filho Carlos investigado por causa das Fake News e o 01, Flávio, por envolvimento com milicianos. Sem falar na prisão da líder dos 300, que são 30. A partir daí, mudou o discurso, posando de "Bozinho paz e amor".

Mas as más notícias não param por aí. Como diria o mais otimista dos pessimistas, no Brasil nada é tão ruim que não possa piorar. Na semana passada, uma nuvem de gafanhotos vinda da Argentina ameaçava devorar plantações inteiras nos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Felizmente, uma frente fria bloqueou os insetos que – coincidentemente (ou não!) – são citados na Bíblia como a oitava praga do Egito. Contudo, uma outra nuvem surgiu sobre o Atlântico. Trata-se da nuvem Godzilla, que despeja todo ano milhões de toneladas de areia do Saara no Caribe e na Amazônia. Especialistas afirmam que o fenômeno pode agravar a pandemia.

Lá se foi o tempo em que nos ufanávamos pelo fato de não termos furacões, vulcões e terremotos. Para quem não sabe, a terra já tremeu em alguns pontos do território nacional. No entanto, o maior abalo está por vir, caso a família Bolsonaro seja levada aos tribunais. Aí, sim, será cumprida a maldição final contra o faraó mais trapalhão e pé-frio da História.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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