09 Jul 2020 | domtotal.com

Bolsopetismo ganha força

Estratégia bolsopetista visa proteger corruptos e enterrar a Lava Jato

Bolsonaro recebe os cumprimentos de Augusto Aras na cerimônia de posse do PGR, em setembro de 2019
Bolsonaro recebe os cumprimentos de Augusto Aras na cerimônia de posse do PGR, em setembro de 2019 (Isac Nóbrega/PR)

Jorge Fernando dos Santos

Bolsonaristas e petistas, unidos, jamais serão vencidos. Na sua live de quinta-feira passada (2), no canal do Antagonista no Youtube, Felipe Moura Brasil afirmou que a bancada do PT e aliados de Jair Bolsonaro na Câmara Federal cerraram fileiras contra a prisão em segunda instância.

A saída de Sérgio Moro do Ministério da Justiça mostrou que o atual governo não é muito diferente dos anteriores. Haja vista a parceria com o Centrão e a aproximação com Michel Temer. Isso talvez explique o fato de Rodrigo Maia – o Botafogo do propinoduto da Odebrecht – não ter ainda encaminhado os pedidos de impeachment que repousam na sua gaveta.

Vale lembrar que o pacote anticrime, do próprio Moro, foi desidratado na Câmara com apoio do governo. O relator da PEC 410/18 pela prisão após a segunda instância, deputado Fábio Trad, confirmou ao Antagonista que existe, sim, uma articulação nos bastidores para amenizar o teor do projeto. A estratégia bolsopetista visa proteger corruptos e enterrar a Lava Jato.

Aras e Toffoli

A ideia é que a prisão em segunda instância seja válida apenas para os casos posteriores à aprovação da PEC. Trocando em miúdos, tanto Lula quanto o senador Flávio Bolsonaro (investigado por corrupção, peculato e associação com milicianos), seriam automaticamente beneficiados.

Para proteger o filho 01, tão logo ele foi denunciado pelo esquema das "rachadinhas" na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, Bolsonaro tirou do Ministério da Justiça o antigo Coaf, atual Unidade de Inteligência Financeira do Banco Central.

O segundo passo foi o acordo com o presidente do STF, o ministro Dias Toffoli, que impediu a divulgação de relatórios financeiros. A justificativa era que isso permitiria acesso a dados sigilosos de quase 600 mil pessoas físicas e jurídicas – algumas ligadas a ministros do Supremo.

Motivado pelo procurador-geral da República, Augusto Aras, Toffoli revogou parte da decisão em 18 de novembro. O titular da PGR teria garantido não haver riscos de "devassa" nos dados de cidadãos, pois o Ministério Público cumpre a lei rigorosamente no que diz respeito a informações bancárias.

"Fora Temer"

O "terrivelmente evangélico" Augusto Aras é o preferido de Bolsonaro para a próxima vaga no STF. Ele é filho do ex-deputado baiano Roque Aras, que disputou o Senado e a prefeitura de Feira de Santana pelo PT. Sua escolha para o atual cargo teria sido motivada pelo fato de ser amigo de Toffoli.

Convém lembrar que o presidente sancionou a lei do juizado de garantias, além das restrições à prisão preventiva e à delação premiada. Todas essas "coincidências" explicam o fato de os petistas pegarem leve com ele – apesar do seu comportamento criminoso diante da Covid-19 e do estímulo a manifestações contrárias às instituições democráticas.

Cadê a turma do "fora Temer", movimentos sociais, centrais sindicais, comunidade acadêmica? Apesar da quarentena, há vários meios de mobilização. Contudo, essa gente sabe que foi a corrupção petista que deu origem ao bolsonarismo. De duas, uma: ou aguardam a aprovação da PEC da segunda instância ou apostam no "quanto pior, melhor".

Na verdade, Lula e seus adeptos já não temem Bolsonaro em 2022, mas possíveis candidatos como Dória, Mandetta e Moro – que hoje é odiado por extremistas dos dois lados. Afinal, o eleitor consciente já percebeu que somente um governo moderado poderá pacificar o país e salvá-lo da ruína.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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