16 Jul 2020 | domtotal.com

República rastaquera

As crises política, sanitária, cultural e econômica são os quatro cavaleiros do nosso Apocalipse

Bolsonaro se comporta como garoto-propaganda da cloroquina
Bolsonaro se comporta como garoto-propaganda da cloroquina (Reprodução Facebook)

Jorge Fernando dos Santos

Nunca antes neste país, a elite rastaquera (assim definida pelo professor Marco Antonio Villa) esteve tão bem representada no poder. Afinal, temos em Brasília um dos piores governos do período republicano, exercido por apedeutas e reacionários.

Muita gente votou em Bolsonaro, em 2018, movida pelo sentimento antipetista e pelo desejo de romper com a chamada velha política. Candidatos tradicionais já não tinham a confiança de boa parte do eleitorado, que estava perplexo diante de tanta corrupção e desfaçatez.

Um ano depois da posse, a ficha começou a cair e muitos eleitores se sentiram traídos. Alguns ainda acreditam em Bolsonaro, a maioria por boa vontade ou porque a esperança é a última que morre. Mas a tal elite rastaquera o apoia por convicção, justamente por enxergar no falso messias o líder truculento, moralista e autoritário pelo qual sempre esperou.

Entenda-se por elite rastaquera aquela porção da classe média que se ufana da própria ignorância. Gente sem vocação democrática, que invade hospitais, agride enfermeiras, grita com garçons e se julga dona da verdade. Gente que não sabe o que é república, liberalismo, esquerda, direita, comunismo nem fascismo – embora se identifique com ele.

Ponto e vírgula

Com raras exceções, integrantes do governo rastaquera se arrepiam toda vez que ouvem falar em direitos humanos, povos indígenas, população quilombola e outras minorias ("coisas de comunista"). Usam palavrões como ponto e vírgula, acham que índio só bebe água de rio, que a Mata Atlântica fica na Amazônia e que o Hemisfério Norte influencia o clima da região.

Essa gente vê Jesus na goiabeira, acredita que a terra é plana, jura que o coronavírus é uma arma biológica produzida em laboratório chinês, confunde Kafka com kafta, forja diplomas de doutorado e pensa (sim, eles pensam!) que só é possível educar pela dor.

Mais que mediana, gente medieval, que despreza a ciência, a cultura, o conhecimento. Bolsonaro, por sua vez, ataca as instituições democráticas e confunde Fake News com liberdade de expressão. Depois de subestimar a “gripezinha”, que já matou quase 80 mil brasileiros, tornou-se garoto-propaganda da cloroquina (medicamento desaconselhado pela OMS).

A tempestade em copo d’água provocada pelo comentário do ministro Gilmar Mendes, do STF, sobre as Forças Armadas e a política genocida frente à pandemia, era tudo que o presidente precisava para desviar a atenção do caso Queiroz. Enquanto isso, a doença alcança as aldeias indígenas sob o olhar de paisagem do governo.

Sem sombra de dúvidas, vivemos num tempo bizarro. As crises política, sanitária, cultural e econômica são os quatro cavaleiros do nosso Apocalipse. Para sairmos das trevas, cabe aos cidadãos conscientes e de boa vontade acenderem uma luz no fim do túnel e não mais acreditar em mitos, messias ou salvadores da pátria. Caso contrário, não veremos país nenhum, a não ser uma republiqueta rastaquera isolada da civilização.


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Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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