17 Jul 2020 | domtotal.com

Cuidado, minha filha é especial!

Da série: meu filho tem Down, e agora?

Não tem nada de especial que outros filhos não tenham, e é exatamente por isso que cuidamos deles, assim como todos nós deveríamos cuidar de nossa sociedade, e principalmente, remunerar por isso
Não tem nada de especial que outros filhos não tenham, e é exatamente por isso que cuidamos deles, assim como todos nós deveríamos cuidar de nossa sociedade, e principalmente, remunerar por isso (Nathan Anderson / Unsplash)

Marcel Farah

Quando uma criança com deficiência nasce ouvimos análises batidas, incessantemente.

Para algumas dessas já escutei ou li ótimas rebatidas.

Certa vez ouvi: sabe que agora é pra sempre, né?

Até ganhei um livro chamado O filho eterno, ou algo do tipo.

Fiquei a pensar, qual filho não seria para sempre? Em algum momento seu filho ou filha deixará de ser, seu ou sua parente, seu ou sua descendente?

Lembro sempre de um amigo que, ao escutar esse relato, riu e contou que tinha um irmão assim. Perguntei se ele tinha deficiência, ele respondeu, não, ele vive até hoje, aos 50 anos, com meus pais!

Sobre ele alguns dirão que é um folgado, ou que não deu certo. Mas outros, com mais razão, pensarão, é uma companhia para os pais. No final das contas, é quem cuida dos pais, como em retribuição ao cuidado que recebeu como filho? Pode ser. E esse é o ponto, cuidado.

Ao dizer, agora é pra sempre, quis-se dizer que esta criança, com deficiência, necessitará de cuidados para sempre. É uma constatação razoável, mas não deveria implicar em juízo de valor, afinal, cuidado é o que todos nós precisamos, e sua carência é uma das chaves da "doença" de nossa sociedade.

Melhor dizendo, é uma das chaves da desigualdade, da luta de classes, da exploração das classes trabalhadoras, de mulheres, negras, periféricas, da roça, pelas elites brancas, proprietárias, das grandes cidades.

Foi brilhante o último episódio do Greg News que trata dessa questão do cuidado, em que se diz que a periferia cuida do centro, a classe trabalhadora cuida da classe proprietária, negras e negros cuidam dos brancos, o campo cuida da cidade, mulheres cuidam dos homens, mas, quem cuida de quem cuida? É a desigualdade de cuidado.

Alguns dados citados pelo noticiário cômico mostram como o menosprezo com o cuidado é uma forma de perpetuar a desigualdade e outras mazelas que vivemos. Segundo relatório da Organização Internacional do Trabalho, mulheres e meninas realizam 75% do trabalho não remunerado de cuidado, quanto ao trabalho remunerado, 66% do total de trabalhadores de cuidado são mulheres, nas profissões de enfermeira, assistente social, nutricionista, fisioterapeuta, domésticas, etc.

A desigualdade de gênero é gritante quando comparamos a quantidade de horas que as mulheres se dedicam, em média, ao trabalho não remunerado de cuidado, 4 horas e 25 minutos, contra 1 hora e 23 minutos para os homens, segundo o mesmo relatório. Estamos falando daquele trabalho de arrumar a casa, varrer o chão, cuidar das crianças, lavar a roupa, a louça, tirar o pó dos móveis, etc. As mulheres gastam 3,2 vezes mais tempo que os homens. Talvez, por isso, "o número de artigos científicos publicados por mulheres despencou durante a pandemia, enquanto o dos homens aumentou em quase 50%".

Ou seja, por serem cultural e economicamente responsáveis pelo cuidado, mais do que os homens, às mulheres coube cuidar das pessoas na pandemia. Exatamente por se um trabalho invisibilizado pela sociedade, quem cuida, some junto com seu trabalho.

Voltando à questão dos filhos com deficiência, Flávio Soares, escritor, conta em histórias em quadrinhos como é sua vida com seu filho o Logan, que tem Síndrome de Down. Certa vez, ele disse que escutou de um interlocutor a pergunta: seu filho é especial? Ao que respondeu, sim, todo filho, para um pai, é especial!

Outra boa resposta para uma pergunta irrefletida.

Não tem nada de especial que outros filhos não tenham, e é exatamente por isso que cuidamos deles, assim como todos nós deveríamos cuidar de nossa sociedade, e principalmente, remunerar por isso.

Agora, poderíamos entrar no assunto da renda básica da cidadania, uma remuneração entre outras coisas ao cuidado não remunerado. Mas, esse assunto, deixaremos para outra oportunidade.

Marcel Farah
Educador Popular
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