23 Jul 2020 | domtotal.com

O jornalismo e as fake news

A falsa notícia costuma cobrar um alto preço dos veículos de imprensa que a publicam

Vereador Carlos Bolsonaro chefia o chamado Gabinete do Ódio a serviço do pai
Vereador Carlos Bolsonaro chefia o chamado Gabinete do Ódio a serviço do pai (Reprodução Facebook)

Jorge Fernando dos Santos

Trabalhei numa redação de jornal por mais de 20 anos e aprendi, na prática, que a notícia é mais importante do que a opinião ou o credo ideológico. Por mais que se possa falsear a verdade, cedo ou tarde ela se revela à luz do dia. Isso explica o temor dos políticos e detentores do poder diante da liberdade de imprensa e de informação.

No auge dos processos do Mensalão e da Lava-Jato, petistas protestavam contra a mídia que dava ampla cobertura aos fatos. A Rede Globo e a revista Veja, por exemplo, eram execradas pela militância de esquerda. Hoje, jornalistas e veículos que eram xingados de fascistas ou reacionários são considerados comunistas pelos apoiadores de Bolsonaro. É o caso de Miriam Leitão, que já foi vaiada por lulistas e atualmente é odiada pela extrema direita.

Aqueles que atacam a imprensa por noticiar ou criticar as trapalhadas do governo acham natural que alguns veículos o defendam cegamente, omitindo fatos em troca de favores e verbas publicitárias. Trata-se do "jornalismo chapa branca", modalidade que sempre foi praticada no país. Nesse caso, mudam-se os urubus, mas a carniça continua a mesma.

Recorrendo a um velho ditado popular, pode-se dizer que a imprensa às vezes aumenta, mas não inventa. Os sensacionalistas que geralmente transformam a notícia em espetáculo podem até exagerar na dose, mas raramente se atrevem a forjar os fatos – o que poderia resultar na perda de credibilidade ou no enquadramento legal pelos crimes de calúnia e difamação.

Aliás, essa é a principal diferença entre o conteúdo das redes sociais e o que é divulgado pela mídia tradicional. Na maioria das vezes, youtubers e blogueiros não se responsabilizam pela veracidade daquilo que publicam, enquanto os veículos de comunicação têm a chancela de sua marca, podendo ser facilmente identificados e responsabilizados, em casos de fraude.

Verdade dos fatos

Se a mentira tem perna curta, ela também costuma cobrar um alto preço dos veículos e profissionais de imprensa que a publicam. Uma vez restabelecida a verdade, leitores, ouvintes e/ou espectadores podem se rebelar contra os responsáveis, boicotando as publicações e a audiência. A falta de rigor na apuração dos fatos já provocou a falência de muitas empresas midiáticas pelo mundo afora.

As redes sociais, por sua vez, são facas de dois gumes. Se por um lado elas ampliaram o espaço para a opinião e a circulação de notícias, por outro abriram uma caixa de Pandora que facilita a divulgação irresponsável de boatos e fake news – algo corriqueiro na luta política e ideológica do nosso tempo. Nesse caso, elas promovem a contrainformação, visando caluniar adversários e confundir a opinião pública.

É o que faz, por exemplo, o Gabinete do Ódio chefiado pelo vereador carioca Carlos Bolsonaro a serviço do pai. Trata-se de uma organização criminosa, agora investigada por decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF. Justiça seja feita, a prática perniciosa foi inaugurada no país pelos aloprados e blogueiros do PT, com o objetivo de assassinar reputações de inimigos do partido. Bolsonaristas, por sua vez, sofisticaram e ampliaram o método.

Esse tipo de ocorrência só é possível devido à falta de uma legislação que regule o ambiente virtual. Em tramitação no Congresso, a PL 2630/20 propõe a criação da Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet. A proposta seria estabelecer regras que possam punir e inibir a disseminação de falso conteúdo nas redes sociais. O problema é que a internet é rápida e a lei, burocrática.

Como escreveu George Orwell, autor dos livros A revolução dos bichos e 1984, "jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique; todo o resto é publicidade". Ao contrário de se basearem na realidade dos fatos, as fake news são mentiras publicitárias disfarçadas de notícia, geralmente a serviço de interesses escusos e em prejuízo da verdade. Até quando, ninguém sabe.


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Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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