31 Jul 2020 | domtotal.com

Por descuido!

Falta de cuidado também é projeto político

Presidente da República, Jair Bolsonaro durante visita ao Parque Nacional da Serra da Capivara em 30 de julho
Presidente da República, Jair Bolsonaro durante visita ao Parque Nacional da Serra da Capivara em 30 de julho (Alan Santos/PR)

Marcel Farah

Chegamos aqui por descuido.

Não é de hoje que relaciono o cuidado com o ato de governar. Àquele tempo a reflexão era sobre qual candidato cuidaria melhor de nosso povo, estávamos a alguns dias do segundo turno das eleições de 2018. Hoje temos a resposta.

Falta cuidado ao programa de governo do atual presidente. Mesmo que não exista um programa de governo sistematizado existe um que está sendo implementado, me refiro a este.

O "e daí", de Bolsonaro, quando tínhamos 5 mil mortes pela covid-19, é a tônica dessa ausência de cuidado.

O governo está "pouco se lixando". Importa-se, mesmo, é com cálculos eleitorais para garantir sua continuidade, não assume a culpa por nada de ruim. Mas, mesmo não fazendo nada de bom, consegue manter uma base de seguidores com medidas tangenciais como uma possível nota de 200 reais e com a manutenção de polêmicas, como a defesa da cloroquina.

Pensando assim, há cuidado sim neste governo, alimentando sua base com a fumaça das cortinas que cria, o cuidado do governo é somente com ele mesmo.

Mas, o cuidado a que me refiro é o cuidado com o outro, com o todo. Esse cuidado é a chave que separa nossa sociedade entre exploradores e explorados. A classe trabalhadora, clássica, "proprietária" apenas de seu próprio trabalho, é quem assume as tarefas de cuidado. Em geral as mulheres da classe, e mais marcadamente as negras.

Esse trabalho feminino é mal ou simplesmente não remunerado. É invisibilizado. Nossa cultura é avessa a perceber o cuidado como um trabalho digno. Que o digam as professoras, assistentes sociais, pedagogas, faxineiras, técnicas em enfermagem, trabalhadoras domésticas.

Essas profissões são renegadas, apesar de cuidarem da vida, prepararem as pessoas para viver em sociedade e a sociedade para cuidar das pessoas.

As classes endinheiradas, por outro lado, recebem cuidados, exploram suas cuidadoras, mesquinham direitos trabalhistas, e evitam perceber que cuidar é um ato político. Só pode haver produção e produtividade se houver cuidado. O desenvolvimento é dependente do cuidado.

Vivemos a preponderância do "dane-se", do "cada um por si". É essa a melhor expressão prática do individualismo, é essa a melhor representação do governo neoliberal de Bolsonaro, ou da ideologia do empreendedorismo que permeia o imaginário popular – e talvez uma das principais alavancas culturais que contribuíram para nos trazer até aqui.

O próprio ódio com que tem sido visto o diferente, o progressista, a esquerda, as políticas sociais de igualdade e cidadania, os direitos trabalhistas e previdenciários, a atuação do governo em defesa de sua população, é uma expressão do descuido que nos trouxe até aqui.

— E daí? Lamento. Quer que eu faça o que?

 Penso, portanto, que temos escolhas a fazer para reverter este cenário, mas não poderemos substituir seis por meia dúzia, há quem critique Bolsonaro mas quer que o liberalimso individualista continue no comando. Logo, estas escolhas exigirão muito mais cuidado.

Marcel Farah
Educador Popular
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