19 Ago 2020 | domtotal.com

Dom Pedro Casaldáliga e o Quilombo Campo Grande do MST em MG


O mais profundo da história é construído pelos injustiçados. Os opressores e os violentos, mandantes e executores, serão jogados na lata de lixo da história

PM atira bombas contra acampados do MST que lutam há 50 horas contra despejo em MG
PM atira bombas contra acampados do MST que lutam há 50 horas contra despejo em MG (MST/MG)

Gilvander Moreira

Diante de dom Pedro Casaldáliga, precisamos "tirar as sandálias", pois estamos diante de alguém sagrado, místico no verdadeiro sentido, porque se tornou profeta, bom pastor, além de poeta. Marcou-me muito as 12 vezes que tive a alegria e a responsabilidade de estar com "o bispo vermelho". Conheci dom Pedro Casaldáliga em 1985, enquanto ele dava uma palestra no Studium Teológico, em Curitiba (PR). Fiquei impressionado com aquele homem franzino, mas que com língua afiada, dedo em riste, olhar vibrante, utopia da terra sem males no coração, profetizava dizendo: "Se eu tiver que escolher entre o amor e a justiça, ficarei com a luta pela justiça, pois em uma sociedade estruturalmente injusta não basta amar no sentido de solidariedade".

Marcou-me muito a segunda vez que estive com dom Pedro Casaldáliga, no Memorial da América Latina, em São Paulo (SP). Dom Pedro, com amor infinito por todos os povos latino-americanos, bradava: 

"Temos que construir a Pátria Mãe, a América AfroLatÍndia, pois nossa América não é apenas latina, é principalmente indígena e afrodescendente. Somos povos irmãos. Não podemos ficar olhando para Europa e Estados Unidos e de costas para os povos da Pátria Grande, nossa América AfroLatÍndia. Somos povos irmãos, porque fomos vítimas de genocídio indígena e de escravização pelos opressores europeus. Que maravilha o esplendor cultural existente na nossa Pátria Grande e Mãe".

Em 1992, dom Pedro, de surpresa, chegou a São Paulo, na celebração dos 60 anos de frei Carlos Mesters. Chegou carregando um grande pote e, retirando de dentro dele uma Bíblia da edição Pastoral, dizia: 

"Frei Carlos Mesters é presença do Deus da vida no nosso meio que retira do baú, do pote, coisas velhas que são coisas da vida e da caminhada. Carlos Mesters democratiza o acesso aos textos bíblicos ao nos ensinar a fazer leitura bíblica de forma comunitária, ecumênica, transformadora e militante. Quem não leu ainda deve ler todos os livrinhos do frei Carlos Mesters. Seus textos, frei Carlos, nos ajudam na caminhada de enfrentamento ao latifúndio, na opção pelos pobres, na luta pela terra e pelos direitos dos povos indígenas".

Inesquecível também o protagonismo de dom Pedro Casaldáliga no 10º Intereclesial das CEBs, em Ilhéus (BA), em julho de 2000. Irradiando espiritualidade, ecumênica e macroecumênica, dom Pedro bradava profeticamente: "Nosso sonho, nossa utopia, é a terra sem males. Esse é o sonho de Deus, pois a terra é de Deus, pertence a Deus. Malditas todas as cercas".

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Em 2015, a convite do bispo dom Adriano Ciocca, tive a alegria de passar uma semana na Prelazia de São Félix do Araguaia (MT), assessorando um retiro da equipe de pastoral da prelazia, equipe composta por dom Adriano, padres, freis, freiras e leigos(as) da caminhada. Vi que a Prelazia de São Félix, sob a guia de dom Pedro Casaldáliga, se tornou uma das locomotivas da profecia na Igreja dos Pobres não apenas no Brasil, mas na América AfroLatÍndia e em muitas regiões do mundo. Na Prelazia de São Félix, meu coração se alegrou ao ouvir: "Se não fosse a presença e o apoio firme de dom Pedro Casaldáliga, das irmãzinhas de Jesus, e de todos(as) os(as) agentes de pastoral da Prelazia de São Félix, os povos indígenas Tapirapé, Xavante, Carajá e outros não teriam reconquistado parte dos seus territórios". Foi na Prelazia de São Félix que iniciou a Campanha Permanente de combate ao Trabalho Escravo, uma das atividades da CPT (Comissão Pastoral da Terra). Um missionário me informou: "Após as primeiras chuvas e enchentes, todo ano aqui na região do rio Araguaia, acontece uma grande mortandade de peixes, porque a enorme quantidade de agrotóxicos pulverizados nas lavouras vai para os cursos d’água. Morre muito peixe e o número de pessoas doentes cresce assustadoramente".

Em Ribeirão Cascalheira, na Prelazia de São Félix do Araguaia, visitei o Santuário dos Mártires da Caminhada. Emocionante caminhar onde o padre João Bosco Burnier, missionário jesuíta, foi martirizado de 11 para 12 de outubro de 1976. Ouvi que dom Pedro Casaldáliga, ameaçado de morte na Prelazia, e o padre João Bosco Burnier, após celebrarem com o povo os festejos de Nossa Senhora Aparecida, incomodados pelos gritos de duas mulheres presas - Margarida e Santana - foram interceder por elas na delegacia-cadeia de Ribeirão Cascalheira. As mulheres estavam "impotentes e sob torturas: um dia sem comer e beber, de joelhos, braços abertos, agulhas na garganta, sob as unhas; essa repressão desumana", relata dom Pedro no livrinho Martírio do Padre João Bosco Penido Burnier, da Editora Loyola.

Aos 92 anos, com 52 anos sendo missionário profeta no Brasil, dom Pedro Casaldáliga fez sua páscoa no dia 8 de agosto e agora vive em plenitude e em nós na luta sempre, pela construção do reino de Deus a partir do aqui e do agora. Na Missa das Exéquias, celebrada em São Félix do Araguaia, no dia 12 de agosto, dom Adriano Ciocca, atual bispo de São Felix do Araguaia, afirmou que "o sonho de Deus foi o sonho de Pedro também, o sonho do Reino", porque "ele queria justiça, queria fartura, queria alegria, vida plena para todas e para todos". E continuou: "Ele sonhou, e sonhou com os pés no chão, porque não ficou só no sonho, mas ele procurou viver e lutar para que este sonho se realizasse". 

Dom Adriano lembrou a opção radical de dom Pedro Casaldáliga pelo seguimento a Jesus de Nazaré, colocando-se ao lado dos oprimidos, injustiçados, marginalizados: "se fez peão com os peões, se fez índio com os índios, se fez solidário com quem Deus se solidarizou, os abandonados, os excluídos, os escravos". O corpo de Casaldáliga descansa no cemitério dos Carajás, onde eram sepultados os sem nome. Seu corpo lá está, debaixo da cruz, entre um peão e uma mulher prostituída. Com os pobres, os preferidos de Deus, na beira do rio Araguaia, com paz inquieta, foi plantado o corpo de Pedro, semente de vida nova, de ressurreição! Que tenhamos a graça, a coragem e a sabedoria para honrarmos o imenso legado espiritual e profético que dom Pedro nos deixou.

Dom Pedro Casaldáliga, com paz inquieta, esteve vivo misticamente com todas as pessoas do Quilombo Campo Grande, do MST, no sul de Minas Gerais, e com todos(as) que se somaram na resistência durante três dias e três noites. Certamente, dom Pedro, com ira santa e profética, assina embaixo da denúncia que se segue, abaixo.

Aconteceu uma tremenda injustiça, barbárie em Minas Gerais dias 12, 13 e 14 de agosto de 2020. No Quilombo Campo Grande, do MST, em Campo do Meio, no sul do estado, há 22 anos, 453 famílias Sem Terra vivem dignamente dando função social para megalatifúndio das terras da ex-usina Ariadnópolis, de 4,9 mil hectares, que estava totalmente abandonado e ocioso, após a usina falir deixando mais de R$ 400 milhões de dívida trabalhista. 

Enquanto o irmão sol voltava a brilhar dia 12 de agosto, vimos na cidade de Campo do Meio, um cortejo de morte com dezenas e dezenas de viaturas, ambulâncias, caminhões do corpo de bombeiro, um aparato de guerra, a Polícia Militar de Minas Gerais, a mando do governador Romeu Zema (Novo), com decisão liminar de reintegração de posse do TJMG, com mais de 200 policiais de vários batalhões, com caveirões, cachorros, helicóptero e pesado arsenal de armas, com tropa de choque, fazer despejo de várias famílias no Quilombo Campo Grande, do MST. Os Sem Terra do MST, com a militância de uma vasta rede de apoio, resistiram três dias e três noites. 

Policiais atearam fogo em várias partes do Quilombo e no final bombardearam-no com bombas de gás lacrimogêneo, com voos rasantes de helicóptero com policiais apontando metralhadoras para o povo que resistia bravamente. Asfixiando os Sem Terra com gás lacrimogêneo e terror, a PM expulsou crianças e professoras e destruiu a Escola Popular Eduardo Galeano, destruiu setes casas e não ofereceu alternativa digna de moradia previamente.

Uma das primeiras barreiras de resistência que a tropa de choque encontrou foi um grupo de crianças Sem Terrinha, do MST, que, de cabeça erguida e muita coragem, segurando cartazes, bloqueavam a estrada por onde a tropa de choque deveria passar para fazer o infame despejo. Uma das cenas mais emocionantes e eloquentes: crianças Sem Terrinha, na luta, resistindo à investida de um imenso aparato bélico. Diziam: "Não derrubem nossa escola!" "Não derrubem nossas casas!".

Em meio à pandemia, esse despejo é genocida. A liminar de reintegração de posse cumprida com repressão e violência policial é injusta, inconstitucional, cruel e uma ação genocida do governador Romeu Zema. A decisão do TJMG, que expediu a liminar de reintegração e se negou a cassá-la, mesmo diante de "mil" argumentos da Defensoria Pública, do Ministério Público e de advogados Pppulares, é inconstitucional, porque viola e pisoteia no principal princípio e básico da Constituição de 1988: Respeito à dignidade da pessoa humana. 

Além do terror espalhado, da Escola Popular Eduardo Galeano, de várias casas, sonhos e direitos destruídos, quantas pessoas terão contraído ou disseminado o novo coronavírus durante os três dias da mega operação de despejo durante a pandemia, violando todas as regras sanitárias recomendadas pela OMS e por médicos infectologistas?

A ocupação do megalatifúndio das terras da ex-usina Ariadnópolis, em Campo do Meio, aconteceu em 1998, 22 anos atrás, como fruto do combate ao trabalho escravo no sul de Minas e como fruto dos mártires de Eldorado dos Carajás. 

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Todos os presidentes do Brasil, de 1998 até hoje poderiam e deveriam ter desapropriado o latifúndio que estava abandonado sem cumprir a função social, mas nenhum presidente nos últimos 22 anos assentou as 450 famílias Sem Terra do MST que já sofreram seis cruéis despejos, mas não arredam o pé da terra. "Essa terra é nossa", bradam heroicamente os Sem Terra do MST. 

O Poder Judiciário também, em 22 anos, se julgasse conforme os princípios da Constituição do respeito à dignidade humana, função social da propriedade e direito à terra poderia e deveria ter decidido, justamente, a favor dos Sem Terra do Quilombo Campo Grande, mas até hoje tem decidido para beneficiar empresários especuladores. 

Indignados com mais essa imensa Sexta-feira da Paixão promovida pelo estado em Minas Gerais, reafirmamos que não há despejo apropriado e nem oportuno. Todo despejo é maldito, cruel, desumano, execrável e desintegrador de sonhos e de direitos. Mas a história demonstra que a força mística e espiritual dos injustiçados é invencível. 

O mais profundo da história é construído pelos(as) injustiçados(as). Os opressores e os violentos, mandantes e executores, serão jogados na lata de lixo da história. Vivem e viverão sempre em nós na luta por tudo o que é justo e bem comum: as profetizas e os profetas, Jesus Cristo, Che Guevara, Rosa Luxemburgo, Chico Mendes, padre Ezequiel Ramin, padre Josimo, os fiscais massacrados em Unaí, irmã Dorothy, Margarida Alves, os Sem Terra assassinados, Dandara, Zumbi, Antônio Conselheiro, dom Pedro Casaldáliga ... Enfim, uma multidão de mártires que nos impulsionam na luta obstinada pela construção de uma terra sem males.

Exigimos que o governador de Minas, Romeu Zema, e/ou o presidente do TJMG, desembargador Gilson Gomes Lemes, suspendam esse despejo absurdo em tempo de pandemia e proíbam outros despejos durante a pandemia. Despejar não é atividade essencial. Exigimos Despejo Zero! E exigimos com urgência a desapropriação definitiva do latifúndio das terras da ex-usina Ariadnópolis. O MST iniciou o despejo do Zema. Pedimos em nome de Deus, das crianças e por respeito à dignidade da pessoa humana: Parem todos despejos no Brasil para salvar vidas!

Os vídeos nos links, abaixo, ilustram o assunto tratado acima.

1 - Exigimos "Despejo Zero" para salvar vidas - Por frei Gilvander - 1ª Parte - 17 de agosto de 2020


2 - "A luta não vai parar!" MST e Quilombo Campo Grande, em MG: Despejo é crime; na pandemia, genocídio 


3 - Lições da luta/resistência no Quilombo Campo Grande, do MST, sul de MG, após despejo genocida/cruel


4 - Cenário de guerra no Quilombo Campo Grande, do MST, Campo do Meio/MG: Gov. Zema, TJMG, PM-MG. 14 de agosto de 2020


5 - PM de MG bombardeando o Quilombo Campo Grande, do MST, em campo do Meio, MG: barbárie - 14 de agosto de 2020


6 - Quilombo Campo Grande, do MST, resiste há 48 horas ao despejo, em Campo do Meio/MG. Caveirão na área


7 - PEDRO, PROFETA DA ESPERANÇA - Documentário da Verbo Filmes sobre Dom Pedro Casaldáliga - 8 de agosto de 2020


8 - Homenagens a dom Pedro Casaldáliga: místico = Profeta, Pastor e Poeta. Missa, Batatais (SP), 9 de agosto de 2020


Gilvander Moreira
é frei e padre da Ordem dos carmelitas; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma, Itália; doutor em Educação pela FAE/UFMG; assessor da CPT, CEBI, CEBs, SAB e Ocupações Urbanas; professor de “Direitos Humanos e Movimentos Populares” em curso de pós-graduação do IDH, em Belo Horizonte, MG, autor de livros e artigos.
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