05 Set 2020 | domtotal.com

Basta de miséria, preconceito e repressão!

Celebração do Grito dos Excluídos de 2020 terá de ser através da internet

Grito dos Excluídos de 2019, em São Paulo
Grito dos Excluídos de 2019, em São Paulo (Cidoli)

Marcelo Barros

Mais uma vez, desde 1995, a data da independência do Brasil é marcada por manifestações populares. Elas nos lembram que a  independência política, ocorrida em 1822 está incompleta. Para verdadeira independência, um país deve garantir vida livre e digna para toda a sua população. Isso supõe superar as desigualdades sociais e as injustiças delas decorrentes. Por isso, a cada 07 de setembro, movimentos populares e pastorais sociais da CNBB organizam o Grito dos Excluídos que se expressa através de concentrações e caminhadas pelas ruas das cidades.

O Grito é um gesto profético em defesa da justiça e do direito de todos. Em outros tempos, bispos profetas se colocavam como voz dos que não tinham voz. Hoje os próprios excluídos lutam para ter voz e vez no embate por uma plena cidadania. Neste ano, sua celebração terá de ser através da internet e de forma mais processual. No entanto, a crise social e sanitária imposta pela pandemia mundial de Covid-19 e os graves retrocessos sociais impostos pelo atual governo brasileiro tornam ainda mais necessários o protesto e as manifestações da população atingida. Por isso, a organização do Grito insiste em proclamar a  preservação da vida em primeiro lugar. Opõe-se a um modo de organizar a sociedade que aumenta as desigualdades e injustiças. Neste ano, o lema do Grito será Basta de miséria, preconceito e repressão! Queremos trabalho, terra, teto e participação!

Por todo o Brasil, as milhares de pessoas envolvidas nas atividades do Grito manifestam solidariedade aos quase 120 mil irmãos e irmãs mortos pela Covid-19. Denunciam o descaso e indiferença com o qual o presidente do país e o seu governo têm tratado a pandemia. Solidarizam-se às comunidades indígenas e remanescentes de quilombos, especialmente, atingidas pela pandemia e vítimas da cruel omissão das autoridades.

O Grito dos Excluídos também faz referência à urgente necessidade de revogação da Emenda Constitucional (EC) 95, a chamada Teto de Gastos. A tão falada crise econômica não pode mais servir de justificativa para tirar direitos da população e reduzir serviços públicos. Não é justo descarregar sobre a população mais pobre as consequências do descuido do governo. Os trabalhadores e trabalhadoras não podem continuar sendo penalizados pela ausência de políticas públicas, em todas as áreas. Por isso, é urgente revogar essa emenda constitucional.

Pelo fato de que, neste momento, ainda não podemos realizar o manifestações em praças públicas, o coletivo que coordena estabeleceu que todo dia 7 de cada mês, será um "Dia D do Grito". De fato, o sistema de exclusão e de injustiças tem sido constante. Por isso, se torna necessário que esta realidade seja denunciada e combatida durante um tempo maior e através de diversas atividades que vão se espalhar por este tempo a seguir.

Para todas as pessoas que seguem tradições espirituais, é importante que a solidariedade com os setores mais oprimidos e vulneráveis da sociedade seja considerado como prioridade sagrada. Simone Weil, espiritual francesa da primeira parte do século 20, afirmava: "Eu reconheço quem é de Deus, não quando me fala de Deus, mas pelo seu modo de se relacionar com as pessoas e de lutar pela justiça no mundo".

Todos sabem que o Brasil é o terceiro país do mundo em desigualdades sociais. Não poderemos mudar essa realidade apenas com gritos, mas, de fato, o Grito dos Excluídos é um movimento que se desdobra em iniciativas de organização dos trabalhadores e debates políticos com propostas alternativas importantes para o país.

O que caracteriza a fé judaica e cristã é a relação íntima entre a intimidade de Deus e o cuidado com a justiça e a solidariedade. Nos evangelhos, Jesus insiste de que não se pode separar o amor a Deus e o amor aos irmãos e irmãs. Ele revelou a preferência divina por aquelas pessoas que o evangelho chama de "pequeninos e objetos da predileção de Deus". Ele as toma como companhia privilegiada em seus contatos e refeições. E afirma: "Quem acolhe uma pessoas destas (excluída da sociedade), é a mim que acolhe" (Mateus 25, 31 ss).

Marcelo Barros
Marcelo Barros é monge beneditino e teólogo especializado em Bíblia. Atualmente, é coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). Assessora as comunidades eclesiais de base e movimentos sociais como o Movimento de Trabalhadores sem Terra (MST). Tem 45 livros publicados dos quais está no prelo: "O Evangelho e a Instituição", Ed. Paulus, 2014. Colabora com várias revistas teológicas do Brasil, como REB, Diálogo, Convergência e outras. Colabora com revistas internacionais de teologia, como Concilium e Voices e com revistas italianas como En diálogo e Missione Oggi. Escreve mensalmente para um jornal de Madrid (Alandar) e semanalmente para jornais brasileiros (O Popular de Goiânia e Jornal do Commercio de Recife, além de um jornal de Caracas (Correo del Orinoco) e de San Juan de Puerto Rico (Claridad).
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