10 Set 2020 | domtotal.com

Aglomerações

Denúncias nas cortes internacionais de Justiça alegam que no Brasil se comete um genocídio premeditado

Praia do Flamengo, na Zona Sul do Rio, na véspera do feirado (6)
Praia do Flamengo, na Zona Sul do Rio, na véspera do feirado (6) (Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Frei Betto

O ser humano é ontologicamente gregário. Nasce como fruto de uma relação a dois, em família, e necessita em média doze anos de cuidados para se tornar um indivíduo autônomo. Sua identidade é moldada pelo olhar do outro. Freud e Lacan consideram que o olhar alheio é fundamental na constituição do sujeito. Desde o próprio nome, que a pessoa não escolhe, ao fato de se sentir amado, rejeitado ou odiado.

A solidão não é para amadores. O primeiro requisito para suportá-la é o olhar que se tem de si mesmo. Quem não se ama não a suporta. O filme Uma noite de 12 anos, sobre o longo encarceramento de José Mujica, ex-presidente do Uruguai, em celas solitárias, comprova que os valores éticos e políticos que abraçara o impediram de enlouquecer.

Já os políticos autoritários, imbuídos de baixa autoestima, necessitam de plateia para se sentirem vivos. Trancados entre quatro paredes, sabem que, ao contrário da afirmação de Sartre, o inferno não são os outros, está neles mesmos. Por isso, urgem vir a público e, como dizia Chacrinha, atirar bacalhaus à claque. Mentem, vociferam, agridem, ameaçam, desde que ocupem o proscênio o máximo de tempo. Seus acólitos, desprovidos de qualquer senso crítico, adoram.

A pandemia nos impõe o isolamento. Seja individual, seja em família, quem tem condições de ficar em casa. Em um país tão injustamente desigual como o Brasil, ficar em casa, para a maioria, é evitar a morte por doença para expor-se a ela por fome.

Passados quatro meses de quarentena, governos municipais e estaduais, pressionados pelo poder econômico, iniciaram a flexibilização. E muitos que se encontravam reclusos e já não suportavam o "cárcere" doméstico, passaram a surfar nessa abertura.

Ainda que contrariando leis e recomendações sanitárias, as aglomerações se multiplicam em bares, restaurantes, parques e praias. E os donos das escolas particulares batem o pé para que os governos permitam, o quanto antes, as aulas presenciais, ainda que isso represente risco de contaminação para professores, funcionários, alunos e suas respectivas famílias. O caixa fala mais alto que a ameaça de caixão...

Observe-se como age a fiscalização. Nosso aparato policial, (de)formado na lógica da naturalização da diferença social, atua com rigor quando encontra aglomerações nas periferias e nos bairros habitados por famílias de baixa renda. Porém, põe luvas de pelica ao chegar aos redutos onde se comprimem aglomerados de classes média e rica. No Brasil, todos são distintos perante a lei...

Tudo isso incentivado por um presidente necrófilo, que sente prazer com a morte alheia, o que os alemães definem como "Schadenfreude" (derivado de "Schaden", dano, e "Freude", prazer). Por isso se justificam as denúncias às cortes internacionais de Justiça de que, no Brasil, se comete um genocídio premeditado. A motivação de Bolsonaro não é amar o seu povo, e sim armar e anular toda medida que proteja a vida alheia, desde a obrigação de cadeirinha de bebê nos veículos aos cuidados da saúde dos povos indígenas, do uso de máscara à obrigatoriedade de possível vacina contra a Covid-19.

Reage, Brasil!

Frei Betto
é escritor e religioso dominicano. Recebeu vários prêmios por sua atuação em prol dos direitos humanos e a favor dos movimentos populares. Foi assessor especial da Presidência da República entre 2003 e 2004. É autor de "A Obra do Artista – uma visão holística do Universo", "Um homem chamado Jesus", "Batismo de Sangue", "A Mosca Azul", entre outros.
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