08 Out 2020 | domtotal.com

Política, corrupção e ética

Os eleitores não têm bola de cristal para depositar seu voto num candidato, nem em um partido que os represente plenamente

Abertura do 'Fórum: o controle no combate à corrupção' em 2019
Abertura do 'Fórum: o controle no combate à corrupção' em 2019 (Antonio Cruz/Agência Brasil)

Flávio Saliba

Uma das convicções mais arraigadas do pensamento de esquerda é a de que o combate à corrupção é um equívoco ou, quando muito, uma das últimas prioridades na vida política nacional. Seja porque entendem que a corrupção, sendo intrínseca ao capitalismo, desaparecerá com a revolução proletária, seja porque o seu combate sempre esteve associado ao discurso da direita, notadamente o da velha UDN.

Um novo e desconcertante elemento veio reforçar tal convicção: a prisão de nomes consagrados, para não dizer sagrados, dos governos de esquerda.

Circula nas redes sociais um vídeo em que um cidadão afirma que "a questão não é honestidade versus corrupção. Política não é centralmente uma questão de ética, é essencialmente uma questão de interesses" e toma isso como mote para desfiar um rosário de verdades sobre os interesses em jogo no atual governo. Termina por culpar o eleitor que, num país tão desigual, vira massa de manobra de bandidos e demagogos.  Ora, como evitar que a política deixe de ser apenas um jogo interesses e passe a incorporar um mínimo de princípios éticos?

Os eleitores, mesmo os mais politizados, não têm bola de cristal para depositar seu voto num candidato e, muito menos, num partido que os represente plenamente. Todos nós já erramos, até por falta de escolha. O combate efetivo à corrupção, com prisões e afastamento de políticos e seus comparsas tem a virtude de inibir o assalto aos cofres públicos, desencorajar o crime e, consequentemente, depurar a vida política nacional.  Há quem diga que a causa da bandidagem e da corrupção é a falta de res pública, é a falta de boa política. Mas quem vai promover a boa política? Já tentamos fazê-lo mas fomos redondamente enganados com os desmandos, escândalos, assaltos aos cofres públicos, alianças escusas e ruina econômica. Voltamos a uma "nova" velha política com alianças impensáveis no desmantelamento do aparato de combate à corrupção. Uns para defender a família ou a si próprio, outros para manter fora da prisão seu ídolo maior e proteger correligionários.

Um professor doutor, politicamente moderado, argumenta que o combate à corrupção é uma inversão do problema e que sua causa é a ausência de sentido público na política. Ora, quem vai imprimir sentido público a uma vida política degradada senão as próprias instituições públicas incumbidas de combater o crime organizado e de colarinho branco que o atual governo busca esvaziar com o beneplácito de uma oposição de esquerda cada vez mais desacreditada? Em uma palavra, o combate à corrupção na percepção das esquerdas é tido como puro "moralismo", no pior dos sentidos, de uma classe média vista com desdém por seus por seus próprios rebentos politicamente radicalizados.

Flávio Saliba
Formado em Ciências Sociais pela UFMG (1968), Doutor em Sociologia pela Universidade de Paris (1980), Pós-doutorado na Berkeley University (1994), Professor de Sociologia da UFMG. Livros publicados: 'O diálogo dos clássicos: divisão do trabalho e modernidade na Sociologia' (Ed. C/Arte, BH, 2004), 'História e Sociologia' (Ed. Autêntica, BH, 2007). Vários artigos publicados em revistas e jornais nacionais.
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