10 Out 2020 | domtotal.com

As veias interrompidas da América Latina

Em todas as tentativas e lutas de libertação da América Latina, sempre esteve presente o sonho de sua unidade, da grande Abya Yala

Mão, escultura de Oscar Niemeyer em cuja palma vemos o mapa da América Latina como que se esvaindo em sangue
Mão, escultura de Oscar Niemeyer em cuja palma vemos o mapa da América Latina como que se esvaindo em sangue (USP imagens)

Marcelo Barros

A cada 12 de outubro, os latino-americanos recordam o aniversário da chegada dos colonizadores espanhóis ao seu continente e o começo da colonização. Para os povos indígenas, invadidos e escravizados pelos colonizadores, a conquista foi uma das mais violentas e cruéis da história. Cálculos atuais mostram que o genocídio contra os índios matou 70 milhões de pessoas (Cf. GRONDINO, Marcelo e VIEZZER, Moema, O maior genocídio da história da humanidade, mais de 70 milhões de vítimas entre os povos originários das Américas, Ed. Toledo, 2018).

Não deixa, então, de ser espantoso que em 2018, em Puerto Maldonado, no Peru, o papa Francisco tenha dito em seu discurso: "Neste momento da história em que vivemos, os povos indígenas estão ameaçados em sua existência humana e cultural, mais do que em outras épocas".

Como estratégia para melhor dominar, os conquistadores criaram fronteiras e países diferentes. Por isso, em todas as tentativas e lutas de libertação, sempre esteve presente o sonho da unidade da grande Abya Yala, nome com o qual os povos Maya chamavam o continente. No começo do século 19, Simon Bolívar, o libertador, chamava o continente: "Nuestra América". Algumas décadas mais tarde, José Marti, pensador e líder independentista cubano, a chamava de "Pátria grande". Ambos consagraram as suas vidas a este ideal da independência e da unidade. No entanto, a ideologia dos impérios estava interiorizada em muitos colonizados e a ambição da elite de cada país foi mais forte.  Ainda hoje, países do continente disputam linhas de fronteiras e outras divisões.

Desde o final do século 20, o governo bolivariano do presidente Hugo Chávez na Venezuela e, mais tarde, os governos de Evo Morales na Bolívia e Rafael Correa no Equador, com a colaboração do governo brasileiro na primeira década deste século, coordenaram grande esforço de integração da região. Foram fundados diversos organismos de diálogo e integração do continente, no nível dos governos, no âmbito do comércio e da solidariedade comum. Países como o Equador, a Bolívia e a Venezuela tinham alcançado um novo patamar de distribuição social de renda. Tinham implementado uma justa reforma agrária e priorizavam a participação de todos os cidadãos no destino do país. Desde 2016, isso foi atacado. As veias que faziam do continente um só organismo tiveram sua comunicação interrompida e destruída.

Vários governos atuais de nossos países se orgulham em ser lacaios do império que quer dominar o continente. O governo dos Estados Unidos não perdoa Cuba e Venezuela por terem se libertado da exploração a que eram submetidos em sua história. Ambos os países são castigados com um bloqueio comercial criminoso. Os Estados Unidos financiam a guerra midiática que diariamente espalha notícias falsas e coloca os próprios povos do país contra seu governo. Cuba e Venezuela resistem, mas a um preço altíssimo. Assim mesmo continuam o seu caminho de solidariedade. Agora na pandemia, ambos nos dão o exemplo de países que cuidam dos seus povos. Além disso, Cuba se esmerou em vencer o bloqueio e mandar médicos para ajudar em vários países do mundo.

No Brasil, o governo é cada vez mais subserviente ao império norte-americano. A elite que sempre se negou a qualquer diálogo de integração volta a usar o fantasma do comunismo. 

Ao contrário, nestes dias, o papa Francisco publicou a nova carta-encíclica Todos somos irmãos e irmãs. Nesta carta, ele propõe a humanidade retomar a cultura da solidariedade fraterna, exercitar a amizade social e compreender que os bens indispensáveis à vida devem ser considerados como bens comuns da humanidade e estão acima dos interesses individuais. Essa irmandade universal é realização do projeto divino para o mundo. Qualquer que seja a religião ou caminho espiritual, todas as pessoas que buscam a paz e a justiça eco-social são chamadas a discernir qual passo devemos dar depois dessa pandemia. Mesmo agora,  em meio a todos os torvelinhos da política e para além das pandemias e das tempestades do dia a dia, precisamos testemunhar e colaborar com o desejo divino de ver a humanidade reconciliada como uma só família e em comunhão com o planeta Terra e todos os seres vivos.

Marcelo Barros
Marcelo Barros é monge beneditino e teólogo especializado em Bíblia. Atualmente, é coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). Assessora as comunidades eclesiais de base e movimentos sociais como o Movimento de Trabalhadores sem Terra (MST). Tem 45 livros publicados dos quais está no prelo: "O Evangelho e a Instituição", Ed. Paulus, 2014. Colabora com várias revistas teológicas do Brasil, como REB, Diálogo, Convergência e outras. Colabora com revistas internacionais de teologia, como Concilium e Voices e com revistas italianas como En diálogo e Missione Oggi. Escreve mensalmente para um jornal de Madrid (Alandar) e semanalmente para jornais brasileiros (O Popular de Goiânia e Jornal do Commercio de Recife, além de um jornal de Caracas (Correo del Orinoco) e de San Juan de Puerto Rico (Claridad).
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