15 Out 2020 | domtotal.com

Covid-19 ainda preocupa

Em termos de ignorância, a atitude negacionista só se compara ao terraplanismo

Inauguração de uma loja da Havan, em Belém do Pará, no sábado (10) causou aglomeração
Inauguração de uma loja da Havan, em Belém do Pará, no sábado (10) causou aglomeração (Reprodução/Twitter))

Jorge Fernando dos Santos

No fim de semana prolongado, o que se viu nas praias e bares em várias partes do país foi a comprovação de que boa parte dos brasileiros não está nem aí para a Covid-19. O mesmo ocorreu na inauguração de uma loja da Havan, em Belém do Pará, no sábado (10). A aglomeração e o fato de muita gente não usar máscara em lugares públicos comprovam que a ignorância é a principal doença a ser curada.

Enquanto isso, na Itália, voltou a ser obrigatório o uso de máscara em espaços abertos. Isso porque o país começa a enfrentar uma segunda onda do coronavírus. Mesmo que os sintomas até agora apresentados não sejam tão graves quanto aqueles da primeira onda, autoridades sanitárias sabem que é melhor prevenir do que remediar.

No Brasil, o filho zero três de Bolsonaro, conhecido como Eduardo Bananinha, comparou a iniciativa do governo italiano às práticas nazistas da Segunda Guerra. Coincidentemente, também a Alemanha fechou questão sobre como enfrentar a segunda onda da pandemia. Bem fez o jornalista Diogo Mainardi ao sugerir ao "lustríssimo" deputado federal o uso de uma focinheira, em vez de máscara.

Em termos de ignorância, a atitude negacionista só se compara ao terraplanismo. Mesmo com todo o avanço da ciência e a certeza de que o isolamento social serviu (e ainda serve) para retardar a contaminação pelo coronavírus, cresce a pressão reacionária pelo "liberou geral", cujos resultados seriam catastróficos. Alguns bolsonaristas, inclusive, já se manifestaram contra as vacinas que estão em fase de testes.

Teoria da conspiração

Se o governo federal tivesse levado a sério as medidas recomendadas pela Organização Mundial de Saúde, certamente não teríamos ultrapassado a marca de 150 mil mortes por Covid-19. Ao contrário disso, o presidente Bolsonaro criticou o isolamento social, insistiu na tese da "gripezinha" e no uso indiscriminado da cloroquina para matar o "vírus comunista".

A crença de que o coronavírus teria sido criado pelos chineses para sabotar a economia ocidental e o governo americano de Donald Trump ainda prevalece nos meios conservadores. Vale perguntar quem teria inventado a peste bubônica, que dizimou dois terços da população da Eurásia na Idade Média. Ou quem teria criado a gripe espanhola, a tuberculose, a varíola, o sarampo, a dengue, a Aids e outras doenças nefastas.

A teoria da conspiração serve para camuflar a incompetência de um presidente fanfarrão, que tanto prometeu e que até agora nada fez para recuperar o país da crise deixada pela era petista. Cadê as privatizações e as reformas do ministro Paulo Guedes? Na verdade, a pandemia chegou a tempo de salvar as aparências de uma administração marcada pela estupidez e pela falta de projetos.

Bolsonaro foi o cavalo azarão que venceu a corrida de 2018, quando nem ele mesmo acreditava que isso fosse possível. Venceu não por suas qualidades, mas pelos defeitos dos perdedores. Ao ver os filhos ameaçados pela Justiça, ele traiu as promessas de campanha e se associou ao que há de pior na política nacional. Seu objetivo agora é sepultar a Lava Jato, antes que ela bata em sua porta.  

Fato é que o coronavírus ainda não foi derrotado. Mesmo que os índices de morte e de contaminação estejam desacelerando em várias partes do mundo, não devemos baixar a guarda e ignorar a segunda onda, que já se anuncia na Europa. No entanto, em vez de traçar estratégias para barrar o inimigo em sua nova escaramuça, Bolsonaro e seus acólitos continuam fingindo que tudo não passa de alarmismo.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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