19 Nov 2020 | domtotal.com

Orgulhosamente sós

Bolsonaro isola cada vez mais o Brasil

Presidente da República Jair Bolsonaro, durante reunião da 12ª Cúpula de Líderes do BRICS, por videoconferência
Presidente da República Jair Bolsonaro, durante reunião da 12ª Cúpula de Líderes do BRICS, por videoconferência (Marcos Corrêa/PR)

Carlos Brickmann

Enquanto o Reino Unido, o império onde o sol nunca se punha, libertava as colônias, enquanto a França deixava a Argélia, enquanto a Bélgica desistia da selvagem colonização do Congo, enquanto a Europa enriquecia, Portugal, dirigido por Salazar, uma espécie de Bolsonaro que deu certo, lutava em Angola e Moçambique para manter as colônias. Morria gente aos milhares (mas todos um dia morreremos, tá OK?), nenhum dos tradicionais aliados de Portugal lhe dava apoio, e Salazar proclamava: "Orgulhosamente sós".

Quando os portugueses conquistaram a democracia, as colônias se tornaram países independentes e parou de morrer gente em guerras colonialistas, Portugal retomou suas alianças e enriqueceu. "Sós" – para que?

O Brasil, hoje, está orgulhosamente só. Biden, futuro presidente dos EUA, quer o Acordo do Clima, a preservação da Amazônia. Trump, que luta para ficar, não quer isso. Mas também não fez concessão alguma ao Brasil.

Os EUA são o nosso segundo maior parceiro comercial. A China, a primeira, acaba de se associar a 14 países asiáticos, entre eles Coréia e Japão, no maior acordo de livre comércio do mundo. Juntou-se um terço da população e da economia internacional, com redução de tarifas de 92% dos produtos que negociam. O Brasil não consegue implementar o acordo União Européia – Mercosul, em boa parte por rejeitar a proteção ao meio-ambiente. E por insultar não só os países europeus, mas até a esposa de um presidente.

Belicosamente sós

O Brasil não se limita a ficar "orgulhosamente só". No Mercosul, é clara a hostilidade de Brasília ao governo argentino, a segunda nação do bloco, a quarta parceira comercial do Brasil. Dos dez maiores parceiros brasileiros, além de China (que vem sendo seguidamente atacada por nosso governo) e EUA, há Holanda, Espanha, Alemanha, todos defensores do Acordo de Paris contra a poluição. Há a Argentina, que é considerada "comunista". Difícil.

A hora do Itamaraty

Mas o Pacto Asiático (nome oficial: Regional Comprehensive Economic Partnership ou RCEP) é problemática: dos três mamutes em cena, RCEP, EUA e União Europeia, o Brasil está longe dos três. Seria uma boa oportunidade para a diplomacia brasileira procurar as vantagens possíveis nessa divisão. Mas o Itamaraty se aparelhou para servir de apoio à política externa americana – essa de Trump, anti-China, que está a pique de mudar.

Hostilizando chineses

A coluna A voz do povo, de Aziz Ahmed, transcreve relato do jornalista Bruno Thys: "O coronel da reserva Jorge Luis Kormann, indicado por Bolsonaro para a Anvisa, é dos bons. Nas redes sociais esculhambou a vacina Coronavac, a OMS, chama o Dória de 'China boy', curte os posts de Olavo de Carvalho e de Abraham Weintraub, ex-ministro da Educação. Excelente currículo. Esse vai longe". Não é um modo interessante de lidar com o maior parceiro comercial do país? Lembrando: o coronel conhece vacina pela marca no braço, e opina sobre uma vacina que ainda não foi lançada.

Um bom exemplo

Apenas para dar uma ideia do que são esses mamutes econômicos, olhe seu celular: os EUA desenham o Apple, em grande parte fabricado na China, e criam os softwares que China, Coreia e Japão utilizam; a Samsung faz os projetos de seus celulares na Coreia e usa a China e outros países da Ásia como plataforma de produção; a China produz celulares. A empresa mais avançada em 5G é a Huawei chinesa. Há a Ericsson, sueca, a Nokia, finlandesa (empresas de ótima reputação, mas bem menores) e a Qualcomm americana, conceituada mas que, no caso do 5G, está longe das líderes. Não vamos ficar sem celulares, mas tecnologia e produção estão nos blocos.

Fala, Bolsonaro

O presidente Bolsonaro, na reunião dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), prometeu divulgar "nos próximos dias" uma lista de países que importam ilegalmente madeiras amazônicas, oriundas do desmatamento fora das normas. Ótimo: chega de ver o comprador acusar o vendedor, como se não tivesse responsabilidade alguma. Mas este colunista tem uma dúvida: se alguém quiser exportar Chicabon, terá de cumprir inúmeras formalidades. Como exportar madeira ilegal, muito mais visível, que ocupa mais espaço?

Explicando

Um empresário com negócios na Amazônia explica: há muito tempo, na década de 90, quis exportar madeira de acordo com a lei. "Era tão complicado conseguir a documentação que desisti. O custo da burocracia não compensava, para minha escala de produção." Alguns anos depois, conta o empresário, soube de compra e venda de guias. Houve gente que enriqueceu.

Voto na urna

É cedo, demasiado cedo, para analisar o resultado das eleições. Tudo muito chato: ah, o partido tinha cem cidades, hoje tem 50... E se uma delas é uma metrópole?

Carlos Brickmann
é jornalista e diretor do escritório Brickmann&Associados Comunicação, especializado em gerenciamento de crises. Desde 1963, quando se iniciou na profissão, passou por todos os grandes veículos de comunicação do país. Participou das reportagens que deram quatro Prêmios Esso de Equipe ao Jornal da Tarde, de São Paulo. Tem reportagens assinadas nas edições especiais de primeiras páginas da Folha de S.Paulo e do Jornal da Tarde.
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