19 Nov 2020 | domtotal.com

Entre sonhos e experiência


Guilherme Boulos (PSOL) faz a primeira caminhada segundo turno no centro de São Paulo, acompanhado de Jilmar Tatto (PT) e Orlando Silva (PCdoB)
Guilherme Boulos (PSOL) faz a primeira caminhada segundo turno no centro de São Paulo, acompanhado de Jilmar Tatto (PT) e Orlando Silva (PCdoB) (Filipe Araújo/Fotos Publicas)

Flávio Saliba

Confesso que não me interesso muito por análises eleitorais: quem subiu quem desceu, tendências para as próximas eleições presidenciais e a diversidade identitária dos eleitos, principalmente num país com trinta e tantos partidos, muitos deles de aluguel e, claro, fisiológicos.

Ao que se sabe, o eleitor optou pela segurança e pela rejeição   dos extremos ideológicos que prevaleceram nas eleições de 2018. Como era de se esperar o Partido dos Trabalhadores minguou, cedendo algum espaço para partidos mais à esquerda. As novas agremiações, como o PSL, tiveram desempenho pífio ou simplesmente desapareceram do mapa eleitoral. Prevaleceram os partidos da direita civilizada e os do chamado Centrão.

O Centro, substantivamente falando, ainda não se consolidou enquanto força suficiente para vencer as próximas eleições presidenciais e as costuras neste sentido se afiguram como   tarefa árdua. Apesar da generalizada opção pela exclusão dos extremos ideológicos, o fato surpreendente foi a chegada de Guilherme Boulos ao segundo turno na maior cidade do país.

Assisti, por acaso, ao debate entre ele e Bruno Covas na CNN. Nenhuma surpresa, apenas o reforço de minhas suspeitas em relação ao primeiro. Ele é o clone de Luiz Inácio, tanto na aparência física como no repertório populista. Não se enganem. Aquela indefectível barba esquerdista, o dom da palavra, os gestos, o olhar, a pauta de prioridades e o sarcasmo parecem vir da São Bernardo do Campo dos anos 80, com a ambição de chegar ao Planalto.

Bruno Covas, em sua fleuma, não gesticulava, não fazia caras e bocas limitando-se a afirmar que o que conta na administração de uma cidade como São Paulo é a experiência. Nisto era rebatido por Boulos que insistia em sua experiência de vinte anos de convivência com os sem teto, olho no olho. Por vezes, ladeado por militantes adolescentes, Boulos diz apostar no sonho. Ora, adolescentes sempre sonham. Todo mundo já foi adolescente, já sonhou, muitos foram de esquerda e se revelaram grandes trapalhões, para não dizer trapaceiros. Caráter não tem idade.

Ao ser criticado pelas ações da atual administração na chamada "Cracolândia", Covas reconheceu as enormes dificuldades de solução do problema afirmando que nem a polícia conseguia penetrar na região para reprimir o tráfico de drogas. Elencou medidas de amparo àquela comunidade e afirmou que a região está sendo reconquistada pelo poder público com o intuito de revalorizar aquele espaço central da cidade.

Boulos retrucou que aquela população necessita aconchego e cuidados por parte de psicólogos e assistentes sociais e que o ideal seria criar espaços acolhedores desta população a exemplo do que ocorre em Amsterdam e Barcelona. Nada contra a estes tipos de medidas, embora não se possa desconhecer que elas buscam mimetizar, em contexto social adverso, experiências bem ao gosto de toda uma geração de jovens e urbanistas sonhadores.

Flávio Saliba
Formado em Ciências Sociais pela UFMG (1968), Doutor em Sociologia pela Universidade de Paris (1980), Pós-doutorado na Berkeley University (1994), Professor de Sociologia da UFMG. Livros publicados: 'O diálogo dos clássicos: divisão do trabalho e modernidade na Sociologia' (Ed. C/Arte, BH, 2004), 'História e Sociologia' (Ed. Autêntica, BH, 2007). Vários artigos publicados em revistas e jornais nacionais.
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