26 Nov 2020 | domtotal.com

Conexão interrompida

'Manhattan Connection' tem sido uma ilha de inteligência no mar da mediocridade televisiva

Caio Blinder, Paulo Francis, Lucas Mendes e Nélson Motta formaram o primeiro time
Caio Blinder, Paulo Francis, Lucas Mendes e Nélson Motta formaram o primeiro time (Reprodução Youtube)

Jorge Fernando dos Santos

Manhattan Connection, um dos últimos programas inteligentes do sistema Globo, despediu-se dos telespectadores no domingo passado (22). Foram mais de 27 anos de bate-papos, entrevistas, críticas e comentários sobre artes, filosofia, economia, política e comportamento. A boa notícia é que o domingueiro mais charmoso da telinha deve voltar no ano que vem, pela TV Cultura de São Paulo.

Perguntado sobre a mudança de emissora, o belo-horizontino Lucas Mendes responde mineiramente: "Esquentou muito a Conexão Cultura. O governador (Dória) já me mandou três mensagens e demos duas entrevistas para os jornais da Cultura". Está em curso negociações com patrocinadores privados, para que tudo seja acertado a contento. A CNN também estaria interessada no programa.

O Manhattan estreou em 14 de março de 1993 no GNT e, em 2011, se mudou de mala e cuia para a Globo News. O primeiro time das "manhattazanas" era formado por Caio Blinder, Nelson Motta e Paulo Francis, ancorados por Lucas Mendes. Um dos jornalistas mais competentes da tevê brasileira, ele trabalhou em vários veículos antes da Globo, inclusive na TV Cultura.

Com a morte de Francis, em 4 de fevereiro de 1997, entrou na equipe o cineasta e articulista Arnaldo Jabor, que demorou pouco, sendo substituído em 2003 pelo hoje antagonista Diogo Mainardi, o mais iconoclasta da atual bancada. A produção era de Lúcia Guimarães e Angélica Vieira, que também faziam reportagens especiais.

Perda de autonomia

Outros colaboradores deram o ar da graça ao longo dos anos, entre eles o economista e palestrante Ricardo Amorim, recomendado por Caio Blinder para ser titular do time. O mais recente contratado é o jornalista e ex-modelo Pedro Andrade, repórter culinário também encarregado de cobrir as galerias de arte nova-iorquinas.

O Manhattan nunca foi um campeão de audiência, mas se tornou um programa de prestígio junto ao público mais exigente e interessado nas grandes polêmicas. Desde o início da pandemia de Covid-19, ele perdeu autonomia, passando a fazer parte do noticioso exibido nas noites de domingo pela Globo News. A outrora direitista Rede Globo passa por sérias dificuldades e deu uma guinada para a esquerda. Tudo isso pode ter influenciado a quebra de contrato.

Ao longo dos anos, as "manhattazanas" contrariaram principalmente os petistas, por condenar o mensalão e o petrolão, elogiando abertamente o juiz Sérgio Moro e a Operação Lava-Jato. Como era esperado, passaram a desagradar também os bolsonaristas. Afinal, a postura liberal da turma nunca serviu de viseira ao reacionarismo de Trump e Bolsonaro. Não por acaso, a reestreia na Cultura deverá ser em 20 de janeiro, dia da posse do democrata Joe Biden na Casa Branca.

Agora é torcer para que o programa volte mesmo à telinha, conservando o tom irreverente e a liberdade de opinião que sempre cultivou. Para os brasileiros de gosto requintado, as noites de domingo não seriam as mesmas sem a elegância de Lucas e seus colegas. Manhattan Connection tem sido uma ilha de inteligência no mar da mediocridade televisiva, sobretudo neste tempo sombrio, em que todo mundo fala do que não sabe e quase ninguém escuta o que não quer.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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