03 Dez 2020 | domtotal.com

Educar é corrigir

As crianças de hoje são educadas para um mundo inexistente e muitas nem sabem o que é infância

As crianças de agora, salvo exceções, são frágeis, mimadas e cheias de vontades
As crianças de agora, salvo exceções, são frágeis, mimadas e cheias de vontades (Unsplash/Zahra Amiri)

Jorge Fernando dos Santos

Venho de outros tempos e o mundo mudou muito de lá para cá. Em muitos aspectos, para melhor. Em outros, nem tanto. Na minha infância não havia espaço para mimimis. Tampouco os pais se deixavam levar pelos caprichos e chantagens dos filhos. Escreveu não leu, a correia cantava. Quando não, ficávamos de castigo e não adiantava chorar, fazer beicinho ou bater o pé.

A educação mudou. Aliás, virou de ponta-cabeça. Nos dias de hoje, os filhos, que nada sabem da vida, é que estão (des)educando os pais. Estes, cheios de culpa, têm medo de contrariar os rebentos e acabam se tornando reféns. As crianças de agora, salvo exceções, são frágeis, mimadas e cheias de vontades. A menor contrariedade pode traumatizá-las.

Lembro do meu velho contando que um dia, quando era pequeno, reclamou da comida servida pela mãe na humilde casa em que moravam. Na sua inocente rebeldia, ele disse que abóbora era comida de porco. Meu avô Ricardo coçou a cabeça e disse à vó Helena para servir mais abóbora ao pirralho.

Nos self-services da vida, vejo crianças fazendo o próprio prato sob o olhar permissivo dos pais. Algumas quase se entopem com pedaços de pizza, salgadinhos, batatas fritas e outras bobagens. Nada de carnes nem verduras. Imagino que a maioria deve passar horas diante do computador ou com o celular na mão. Quando se tornarem obesas, a mamãe certamente buscará a milagrosa ajuda de um endocrinologista.

Frangos de granja

No meu tempo – e põe tempo nisso! – a criançada aprendia a se defender do bullying sem a interferência dos pais. A ordem era clara: se apanhar na escola, apanha em casa também. Claro que a violência nunca foi solução para nada, mas não me lembro de nenhum colega que tenha matado alguém ou ficado traumatizado por causa de uma briga na rua ou de uma sova que levou em casa.

Quando um aluno aprontava, a professora o deixava de castigo depois da aula, copiando a lição do dia ou uma simples frase instrutiva centenas de vezes. Passei por isso algumas vezes. A caderneta reservava lugar para notas de disciplina e as minhas não eram muito boas. Hoje, se o "educador" faz algo parecido, os pais se revoltam e vão logo se queixar na diretoria, ameaçando transferir o filho.

Dias desses um motorista de Uber me contou uma história bem ilustrativa. Uma adolescente se deixou filmar na sala, depois da aula, transando com dois ou três colegas ao mesmo tempo. As imagens foram parar na internet e a mãe foi chamada pela diretora da escola, que lhe comunicou o fato. A resposta foi, no mínimo, inusitada: "Uai, vai me dizer que a senhora não gosta de sexo?".

Tenho mais de 60 anos e não sou saudosista, pelo contrário. No entanto, mesmo vendo a garotada de hoje com acesso ao McDonald’s, aos joguinhos eletrônicos, redes sociais, i-Pods e a outras coisas que no meu tempo nem existiam, não sinto nenhuma inveja. Felizmente, meus pais só me deram o necessário, até porque tinham pouco para dar.

Nas palavras do psicólogo Leo Fraiman, num bate-papo com Ronnie Von no programa de tevê Todo seu, "se a criança não é treinada a esperar, a criar, a negociar, a ceder e a se frustrar, você está aleijando a criança". As crianças de hoje geralmente são educadas para um mundo inexistente e muitas nem sabem o que é infância.

Como disse a psicóloga Ana Beatriz Barbosa Silva, numa entrevista ao jornal Tribune online, "dar tudo para o filho é apostar no fracasso dele". Fácil concluir que é por isso que o mundo está cheio de "coitadinhos", gente que se julga incapaz e se faz de vítima diante da menor contrariedade.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
+ Artigos
Comentários