17 Dez 2020 | domtotal.com

Ineficiência atrasa o país

Boa parte da mão de obra disponível no mercado deixa muito a desejar

Apesar da pandemia, a construção civil apresenta bons resultados
Apesar da pandemia, a construção civil apresenta bons resultados (Unsplash/ Josue Isai Ramos Figueroa)

Jorge Fernando dos Santos

Todo mundo sabe que a economia global tem sofrido os efeitos colaterais da Covid-19. No entanto, contrariando as previsões mais pessimistas, há setores no Brasil que parecem imunes à doença. É o caso da construção civil, cujo PIB registrou no início do mês um crescimento de 5,6% em comparação ao trimestre anterior. Foi a maior alta dos últimos seis anos.

No acumulado dos primeiros oito meses de 2020, o setor abriu um total de 58.464 vagas de trabalho com carteira assinada. Os resultados positivos têm sido observados desde o primeiro semestre. Com isso, os segmentos ligados à indústria da construção civil foram puxados para cima em todas as regiões do país. O Sudeste tem apresentado os melhores números no setor.

Segundo dados da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), a soma de operações contratadas com recursos da poupança para aquisição, construção e reforma de imóveis cresceu 40% no acumulado entre janeiro e setembro em comparação ao mesmo período de 2019. O financiamento expandiu 31%, com um total de 237 mil unidades.

Basta visitar um depósito de material para constatar o óbvio. A exemplo das lojas elétricas, de tintas e acabamentos, eles estão lotados em pleno dezembro, às vésperas do Natal. De certa forma, a própria pandemia contribuiu para isso. Forçada ao isolamento social, muita gente que recebeu ajuda do governo economizou para fazer a reforma que vinha adiando.

Crise de competência

Além dos custos, o principal problema de quem precisa construir ou reformar um imóvel por conta própria é encontrar gente qualificada. Os bons profissionais geralmente estão fichados nas construtoras. Boa parte da mão de obra disponível no mercado deixa muito a desejar. Encontrar alguém que entenda do riscado é quase tão difícil quanto ganhar na loteria.

O fenômeno não é de hoje e caberia um estudo sociológico para decifrá-lo. O Brasil vive em permanente crise de competência. A começar pelo presidente da República, cujo despreparo e a falta de visão estratégica só servem para agravar os problemas, o país carece de bons profissionais em muitos setores. Isso pode ser detectado em várias situações, do simples balcão de uma loja à repartição pública mais próxima.

A má formação e a falta de boa-vontade de quem se aventura num tipo de trabalho para o qual não está vocacionado pode transformar o sonho do cliente em pesadelo. Por outro lado, devido à falta de qualidade e de pontualidade nos serviços que presta, o mau profissional acaba engrossando a fila dos desocupados.

Cabe aos governos e à iniciativa privada somar esforços para mudar essa realidade, com investimentos em educação, treinamento e tecnologia. A falta de eficiência é uma pedra no caminho do desenvolvimento econômico. Algo tão grave quanto a crise energética e a falta de infraestrutura, que sempre atrapalharam o crescimento da indústria no país.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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