24 Dez 2020 | domtotal.com

A mãe do blues

Filme centra suas tensões no relato sobre a dura realidade dos negros americanos

Duelo de interpretações entre Chadvick Boseman e Viola Davis é simplesmente de arrepiar
Duelo de interpretações entre Chadvick Boseman e Viola Davis é simplesmente de arrepiar (Divulgação/Netflix)

Jorge Fernando dos Santos

O blues é a expressão máxima da cultura musical afro-americana. Filho dos cantos de trabalho dos negros do Sul, ele está na raiz do spiritual, do jazz, do rock, da soul music e do contemporâneo rap. O "pai do blues", como o conhecemos, teria sido W. C. Handy, mas pouca gente sabe que o gênero também teve mãe. E é justamente sobre ela o filme A voz suprema do blues, em cartaz na Netflix.

Ma Rainey's Black Bottom (nome original da produção de Todd Black, Dany Wolf e Denzel Washington com direção magistral de George C. Wolf) foi adaptado de uma peça teatral de August Wilson, escrita em 1984. No papel-título está Viola Davis, numa interpretação digna do Oscar de melhor atriz.

Chadvick Boseman, astro de Pantera Negra falecido de câncer em agosto deste ano, é o principal coadjuvante. O duelo entre ele e Viola é simplesmente de arrepiar. Também se destacam no elenco o expressivo Glynn Turman (no papel do velho pianista), Colman Domingo e Michael Potts. O roteirista Rubem Santiago-Hudson soube aproveitar com maestria os diálogos da peça original, o que deu à produção uma impressionante força dramática.

O resultado não poderia ser melhor. Trata-se de um filme de arte no melhor sentido do termo. Embora seja uma produção relativamente barata para os padrões americanos, A voz suprema do blues não economiza na emoção. A trama é centrada nos bastidores de uma gravação de Ma Rainey num estúdio de Chicago, em 1927. Arrogante e impiedosa, ela joga duro com os produtores brancos que exploram músicos negros no insipiente mercado fonográfico.

Lenda musical

Gertrude Malissa Nix Pridgett Rainey (1886-1939) nasceu em Columbus, na Georgia, e não demorou a se tornar mais conhecida como Ma Rainey. Uma das mais antigas cantoras profissionais de blues a fazer sucesso, ela foi também uma das primeiras a gravar em disco as músicas que cantava nos palcos. Seu talento serviu de inspiração para jovens cantoras de blues, como a famosa Bessie Smith, citada no filme.

Lenda da música americana, Ma foi homenageada por Bob Dylan na música Tombstone blues (Blues da lápide): "Onde Ma Rainey e Beethoven certa vez desembrulharam seus sacos de dormir, tocadores de tuba agora praticam em redor do mastro". Mesmo assim, ela é pouco conhecida do grande público, o que aumenta a importância do filme que a coloca no mesmo patamar de um Charley Patton ou Robert Johnson.

O filme centra suas tensões no relato sobre a dura realidade dos negros americanos. O trompetista Levee, por exemplo, carrega consigo o trauma de ter visto a mãe ser estuprada por homens brancos. Ao tentar defendê-la com um facão, o garoto de oito anos acaba sendo golpeado, o que resultará numa feia cicatriz no peito e na alma. Por querer se vingar dos agressores, seu pai é enforcado e queimado numa árvore.

August Wilson é o pseudônimo de Frederick August Kittel (1945-2005), dramaturgo de voz própria cuja obra enfoca a trajetória dos negros na América. Seu trabalho inclui uma série de dez peças, intitulada The Pittsburgh Cycle, pelo qual recebeu dois prêmios Pulitzer de Teatro. Cada uma das peças retrata uma década inteira, representando aspectos dramáticos e tragicômicos da experiência afro-americana no século 20. O imperdível filme em cartaz na Netflix nos dá uma pequena mostra da força de sua arte.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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