31 Dez 2020 | domtotal.com

Nascido para a poesia

'Barragens & rejeitos' é um livro de rara beleza, rico em imagens e palavragens do melhor lavradio

Valter Braga tem o talento necessário para criar seja lá o que for em termos de escrita
Valter Braga tem o talento necessário para criar seja lá o que for em termos de escrita (Divulgação)

Jorge Fernando dos Santos

Barragens & rejeitos marca a estreia do compositor Valter Braga em livro. Trata-se de uma coletânea de poesias, publicada pela Quixote + DO Editoras Associadas – uma extensão da Livraria Quixote, point de leitores e escritores no coração da Savassi, em BH. Fiquei muito honrado em escrever o prefácio, intitulado Puxão de orelha.

Para início de conversa, devo dizer que Valter Braga é meu amigo, quase irmão, parceiro musical há mais de duas décadas. Interessante notar que, mesmo sendo um grande letrista, premiado no Festival Cultura – A Nova Música do Brasil 2005 com Haicai baião (parceria com Renato Motha), ele raramente escreveu (ou publicou) poesia.

Para quem não sabe, letra de música e poesia são primas-irmãs, mas de naturezas diversas. Uma funciona na melodia, dependente dos acordes em que é viciada. A outra tem ritmo próprio e não precisa do ópio melódico para alcançar o delírio. Algumas letras podem ser lidas, da mesma forma que alguns poemas podem ser musicados. No entanto, cada gênero tem características particulares.

Versos em prelúdio

O que se constata em Barragens & rejeitos é que Valter Braga entende de letra e de poesia. Ele tem o talento necessário para criar seja lá o que for em termos de escrita. Talvez o fato de ser também melodista contribua para melhor ritmar os seus versos no poema. No caso, podemos fazer paralelo com a obra de Paulo César Pinheiro, que além de ser um dos maiores letristas da MPB é (de quebra) um poeta superlativo.

O "puxão de orelha", no presente caso, se deve ao fato de Valter Braga ter escondido a sete chaves, por um bom tempo, as quatro partes desse livro, podendo cada qual funcionar como obra autônoma. Na primeira, intitulada Manhã de tudo, ele trata dos achados gerais da mineração de ouro nos tempos da Vila Rica dos inconfidentes.

O tom barroco dos versos não é mera coincidência e revela a familiaridade do autor com a escola literária dos árcades homenageados em Serenata dos três poetas. Cláudio Manoel da Costa, por sinal, também é reverenciado em Outras cartas chilenas. No caso, merecem destaque os poemas A devassa, Liberdade ainda e Bens da casa, no qual se leiloam os pertences do Alfares Tiradentes após a sua execução.

A segunda parte, intitulada Inânima (Prelúdio e suítes em natureza-morta), começa com o poema Janela barroca, espécie de moldura limítrofe com a primeira parte. Em seguida, o poeta literalmente pinta com palavras os quadros sugeridos no intertítulo, exibindo Romãs sobre calendário, Pão e trigo, Espelho de mão, Talha d’água e outros poemas de igual fulgor. Entre eles eu destaco Jarra de azeite, cujas palavras pinçadas a dedo escorrem como o óleo que tanto unge quanto trava a existência dos homens.

De Rosa e Rosário

A terceira parte, A rosa e o buriti, merece destaque por dois motivos especiais: os poemas foram construídos para ser musicados e funcionam também como poesia, aquela que não depende do ópio melódico. Como o título sugere, a fonte de inspiração foi o universo de Guimarães Rosa, o que faz supor um grande sertão de palavras bem ao gosto "caipiro" do poeta. O libreto foi melodizado pelo maestro Geraldo Vianna, com as letras sendo intercaladas por breves textos de prosa-poética da lavra do letrista.

Nota-se desde aí a fluência roseana do falar mineirês com o qual Valter Braga sempre teve familiaridade. Formado em Comunicação e Letras, ele tem em Rosa uma de suas leituras prediletas, principalmente devido ao fato de a linguagem remontar ao cenário de sua infância na sertaneja Sabinópolis, antiga São Sebastião dos Correntes. Toada, moirão, décima, quadrão, galope, parcela, sextilha, martelo e sete-pés são gêneros advindos do cordel e servem de ponte entre o "Norde Minas" e o Nordeste brasileiro propriamente dito.

Finalizando, vem o Refestelo, cujo primeiro poema, Rosa, Rosário, evoca a lenda da Nossa Senhora dos pretos e liga a terceira e a quarta parte do livro. Desse modo, Valter Braga desenvolve temas da Festa de Agosto de sua terra natal, evocando o sacramento, o afinador de acordeons, a sensualidade de uma tal Maria Flor, as prendas da quermesse, o marujo Vilmar e a bandeira da santa. Tudo nos conforme, na pena do poeta-cantador que nos encanta com versos, cores e ritmos.

Por tudo isso, em Barragens & rejeitos nada se tem a rejeitar. Trata-se de um livro de rara beleza, rico em imagens e palavragens do melhor lavradio. Há que se observar que a poesia, ao contrário das aparências, é o gênero literário mais difícil de ser praticado.

Muitos daqueles que se dizem poetas pouco entendem do ramo. Valter Braga, que nunca se disse, é um sabedor do ofício. Seu estilo nos faz lembrar mestres como Ferreira Gullar, João Cabral de Melo Neto e (por que não?), o itabirano Carlos Drummond de Andrade. Tudo isso mineiramente, sem favor nem parcimônia.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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