05 Jan 2021 | domtotal.com

Negando o coronavírus, negando a realidade


Newton Teixeira Carvalho

Interessante como a história pode ser sim manipulada e que realmente depende do lado em que a pessoa se encontra, para que os fatos passem a existir, ou não, mesmo que distantes da realidade. Por isto o entendimento de que a história é contada pelo vencedor e não pelo vencido. Ou feita, contada, por quem estiver no poder naquele momento.

Uma das maneiras mais explícitas de falsear a história é o negacionismo, total ou parcial. É não entender, por exemplo, que este momento pandêmico é sério e requer responsabilidade de cada um de nós em prol de todos. Negar a gravidade deste fato é antes de tudo irresponsabilidade.

Assim é que, nesse ano de 2020, de triste memória, está se findando. Desde março passado nossas vidas mudaram completamente. Houve o isolamento social, com várias pessoas permanecendo mais tempo dentro de casa, evitando contato com as demais, com o uso obrigatória de máscaras e uma necessidade constante de limpeza das mãos.

O trabalho em casa passou a ser a regra, com a utilização da informática. Reuniões são feitas virtualmente, o mesmo acontecendo com seminários, congressos, etc.. Aulas nos dois semestres de 2020, nas faculdades particulares principalmente, também foram virtuais, alguns gostando outros não. Porém, antes de tudo foi uma saída necessária e satisfatória.

É certo que, passados mais de nove meses dessa epidemia, várias pessoas insistem em não cumprir as recomendações sanitárias, como não utilizar a máscara ou usá-la incorretamente, colocando-a abaixo do nariz ou dependurada no pescoço.

Entretanto e apesar da seriedade do coronavírus, com sua alta taxa de contaminação e, pior, de letalidade, alguns quiseram negar tais fatos, sob a alegação de que tudo não passava de uma simples gripe. E, infelizmente, já vamos chegar, em poucos dias, em mais de duzentos mil mortos.

Evidentemente, se em Minas Gerais não morreram mais pessoas foi em razão da pronta atuação do Governo Estadual e também do prefeito de Belo Horizonte, que, na omissão do Governo Federal, tomaram, de chofre, atitudes recomendadas pelas autoridades, pela ciência.

Aliás, o embate até hoje entre ciência e economia persiste. Alguns, a exemplo do Governo Federal, sempre foram contra o necessário fechamento do comércio, indústria, escolas, etc., preocupados apenas com a dimensão econômica. Entretanto, entre salvar vidas humanas e deixá-las morrer, evidentemente que o salvamento deve sobrepor. A economia ressurge, porém, os mortos não!

Ademais, enquanto cientistas do mundo todo estavam preocupados com a descoberta de uma vacina para cessar este momento pandêmico, algumas pessoas torciam contra tal empreendimento e ainda desestimulavam a vacinação, pretendendo até mesmo que se colhesse um termo responsabilidade de quem fosse vacinar, como se o mesmo estivesse correndo enorme risco de vida, ao optar por ser imunizado.

Assim é que, apesar dos negacionistas, em dezembro e em vários países a vacina já virou uma realidade e está sendo aplicada em diversas pessoas, sem reações adversas, até o presente momento. 

Enquanto isto, o Brasil ainda não tem um programa detalhado de vacinação em massa. Não se sabe quando iniciará a vacinação por aqui. E, mesmo sendo uma vacina que já está em aplicação em vários países, ainda temos que esperar autorização da agência nacional de saúde, como se o brasileiro fosse diferente das outras pessoas.

Apesar disso, há estoque de cloroquina no Brasil, na suposição, negada pela ciência, de que esse remédio, usado no tratamento e na profilaxia de malária, também poderia ser utilizado para tratamento do coronavírus. Aliás, depois que o presidente da maior nação capitalista do mundo receitou detergente contra o coronavírus, não era de se esperar grande coisa por partes de outros seguidores deste mandatário mor, em fim de mandato e não reeleito, que também sempre negou a gravidade do coronavírus, apesar de ser contaminado pelo vírus, em razão da própria imprudência, antes de tudo.

Com o advento da vacina, outra questão que entristece é que alguns brasileiros entendem que não são obrigados a vacinar, numa demonstração, antes de tudo, de ausência de solidariedade e de nenhuma preocupação para com as demais pessoas. Não querem entender que quanto mais pessoas vacinadas, maior será o resultado da imunização. Também estão olvidados, presos em seu egoísmo, que vacinação é questão de saúde pública - de política pública, apesar da má vontade e da omissão por parte do governo federal.

Assim e mais uma vez, o Supremo Tribunal Federal agiu corretamente ao determinar que todos devem vacinar, sob pena de sofrerem sanção, e, no mesmo julgamento, dispensou a assinatura de documento que isentava o governo federal de qualquer reação adversa, mas cuja intenção, antes de tudo, era desestimular a vacinação por parte das pessoas incautas ou seguidoras cegas de determinações espúrias.

Mesmo sabendo que a vacina será por etapa e obedecendo, prioritariamente, os grupos de riscos, algumas autoridades pretenderam furar a fila e vacinar na frente dos outros, em mais um vergonhoso momento de falta de empatia, de solidariedade e de mau exemplo.

Assim, esperamos que, no ano que agora se inicia e em razão da vacinação, este vírus seja domado e, com o passar do ano, enxergado apenas como um triste e lamentável acontecimento, que acabou ceifando vidas de inúmeros brasileiros, várias delas em razão do desacerto político e também do confronto entre ciência e senso comum. Ainda bem que, não obstante com uma certa morosidade, a ciência acabou prevalecendo.

Newton Teixeira Carvalho
Pós-Doutorado em Docência e Investigação pelo Instituto Universitário Italiano de Rosário (2019). Doutor em Teoria do Estado e Direito Constitucional pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2013), Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (2004). Especialista em Direito de Empresa pela Fundação Dom Cabral (1987), Graduado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (1985). Desembargador da 13ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais. Juiz de Direito da 1ª Vara de Família até junho de 2012. Professor de Direito de Família da Escola Superior Dom Helder Câmara. Autor e coautor de vários livros e artigos na área de família, direito ambiental e processual civil.
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