07 Jan 2021 | domtotal.com

Sistema de mercado e valores morais

Vários observadores da vida social apontavam para uma profunda crise moral relacionada ao sistema de mercado

Tecnologia tende a incorporar a força moral antes associada ao mercado
Tecnologia tende a incorporar a força moral antes associada ao mercado (Unsplash/Mathieu Stern)

Flávio Saliba

O sistema de mercado vai muito além da troca de mercadorias e serviços, da geração de lucros ou do aumento da produtividade e deve ser entendido de forma bem mais ampla do que em termos estritamente econômicos. Isto tem sido exaustivamente demonstrado em estudos sociológicos que buscam identificar as relações entre a economia de mercado e a emergência de uma moral e de uma solidariedade social específicas.

O profundo mal-estar da sociedade contemporânea decorre de dois fenômenos interligados: as transformações nas relações de mercado que, pautadas cada vez mais pelos interesses do capital monopolista e a exclusão, tornam-se menos efetivas na promoção da coesão social; e a desorganização do mercado de trabalho que solapa a principal fonte da identidade individual. Como afirma Robert Wuthnow em seu Meaning and moral order, de 1987, "Nós atribuímos ao comportamento de mercado um valor moral. Nós associamos o sistema de mercado a alguns dos nossos mais caros valores ou objetos morais" e conclui que "uma erosão do sistema de mercado ameaça a verdadeira fonte do compromisso moral e desafia algumas das fontes culturais que dão origem à autoestima.

Já àquela época vários observadores da vida social apontavam para uma profunda crise moral relacionada, de uma forma ou de outra, ao sistema de mercado, manifesta através de altos níveis de alienação e ceticismo em relação ao valor do trabalho. A consequência mais óbvia desse fenômeno é a erosão das fontes de solidariedade e de identidade individual que, na modernidade, são garantidas pela interdependência das funções promovida pela divisão social do trabalho.

Não é por acaso que, nas últimas décadas, a religiosidade, notadamente o fundamentalismo evangélico, emerge como um substituto funcional da solidariedade promovida pelas relações de mercado. É através dela que as camadas mais fragilmente incluídas no mercado de trabalho encontram seu lugar no mundo. Acontece que este tipo de solidariedade é próprio das sociedades pré-industriais e presta-se mais ao controle social e à submissão que à liberdade individual e coletiva, com sérios riscos ao exercício da democracia.

O significado destas mudanças é, ainda, pouco claro mas, segundo Wuthnow, há indícios de que a tecnologia tende a incorporar a força moral antes associada ao mercado. "Considere-se, por exemplo, as realizações que nos tornam orgulhosos enquanto povo: ida à Lua, pesquisa médica, sistema de defesa sofisticado, melhorias no transporte e comunicação, avanços na tecnologia à laser, a última geração de supercomputadores". Ora, este tipo de encantamento ou orgulho difunde-se em maior ou menor grau entre as populações de várias partes do mundo mas, posto que se trata de uma integração puramente simbólico-ideológica não tem a força da coesão social engendrada, na era moderna, pela divisão social do trabalho.

Flávio Saliba
Formado em Ciências Sociais pela UFMG (1968), Doutor em Sociologia pela Universidade de Paris (1980), Pós-doutorado na Berkeley University (1994), Professor de Sociologia da UFMG. Livros publicados: 'O diálogo dos clássicos: divisão do trabalho e modernidade na Sociologia' (Ed. C/Arte, BH, 2004), 'História e Sociologia' (Ed. Autêntica, BH, 2007). Vários artigos publicados em revistas e jornais nacionais.
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