12 Jan 2021 | domtotal.com

Começando a entender o Holocausto, o inferno na terra


Newton Teixeira Carvalho

Apesar da existência de inúmeras testemunhas vivas, que assistiram a morte de numerosos membros da família, dentre eles pessoas doentes e crianças, alguns outros, absurdamente, fazendo disto até mesmo política de Estado, querem negar este bárbaro acontecimento, que ceifou a vida de mais de seis milhões de judeus, ciganos e homossexuais etc., sob a complacência de muitos, inclusive religiosos, intelectuais e filósofos, mundo afora.  

Encarrar a realidade e analisar os equívocos, para que tais fatos não mais aconteçam, é necessário, principalmente diante do crescimento do populismo e de pessoas com ideias extremadas, infelizmente com a adesão de muitos. Não podemos olvidar o passado, considerando que Hitler, um militar (cabo), galgou o poder e acabou surpreendendo o mundo com a implementação da política da solução final e a consequente legalização do crime por intermédio do próprio Estado.

Evidentemente que, terminado o horror da guerra, com a vitória dos aliados, que demoraram muito para entender e perceber o que estava acontecendo na Alemanha, inúmeras pessoas, aliadas do ditador nazista na prática de constantes atos desumanos, mudaram de nome e foram esconder em outros países, como se nada tivesse acontecido. 

Foi assim que surgiram os "caçadores de nazistas", dentre eles Simon Wiesenthal, pessoa que perdeu 89 membros da família no Holocausto, além de ter sofrido crueldades, enquanto esteve preso no campo de concentração de Mauthausen. Simon conseguiu localizar mais de 1.100 criminosos nazistas, dentre eles o que prendeu Anne Frank e toda a família dela.

Com relação à Anne Frank, conforme ela mesma anotou no famoso diário, o amigo constante dela no esconderijo, a família conseguiu se ocultar por mais de 02 anos. Porém, no dia 04 de agosto de 1944 o esconderijo foi descoberto e todos foram presos. A mãe de Anne, Edith, morreu em 5 de janeiro de 1945, em Auschwitz. Anne e a irmã Margot foram enviadas para Bergen-Belsen, no final de outubro de 1944, na Alemanha. Porém, contraíram tipo e morreram, por volta de março de 1945. Foram, conforme consta do aludido "Diário de Anne Frank", sepultadas anonimamente em valas comuns.

Por questão de menos de um ano, com a vitória dos aliados, toda a família teria sobrevivido, após ficar no isolamento e vivendo todos escondidos e sob a maior tensão, com o medo constante de ser encontrados e de comprometer as pessoas que lhes deram abrigo. Apenas o pai de Anne sobreviveu e acabou sendo o principal divulgador do Diário e criou, em 1963, uma fundação com o nome da filha, na Suíça.

A descrição da barbárie ou da banalização do mal, no dizer de Hannah Arendt, foi contada, dentre vários outros livros, no de autoria de Patrícia Posner, "El Farmacéutico de Auschwitz – La história jamás contada de Victor Capesius", Ed. Crítica, Barcelona, 2019.

No livro de Patrícia Posner demonstrado restou que o farmacêutico Victor Capesius, um então popular vendedor de I. G. Farben y Bayer, acabou trabalhando ao lado do chamado anjo da morte em Auschwitz, Josef Mengele, responsável por horríveis experimentos médicos em Auschwitz e que acabou, com o fim da guerra, sendo o criminoso de guerra nazista mais procurado do mundo, depois que Adolf Eichmann foi preso, julgado e executado em Israel.

Mengele, em junho de 1949, sempre com o nome falso, chegou a Argentina, depois foi para o Uruguai, Paraguai e, pouco depois, veio para o Brasil, morando por aqui 17 anos em fazendas, sítios e casas no Estado de São Paulo. Mengele, durante o período nazista, enviou milhares de prisioneiros para a morte em campos de concentração e realizou experimentos cruéis, como médico, em mais de três mil gêmeos, dentre outras atrocidades praticadas por esta (des)humana pessoa.

Mengele morreu afogado aos 67 anos de idade, em 7 de fevereiro de 1979, em Bertioga, São Paulo. Tinha doutorado em antropologia e medicina pela Universidade de Munique, fato a demonstrar que os intelectuais também participaram ativamente do regime nazista.

Tanto Mengele como Capesius recebiam os prisioneiros que chegavam em trem de carga, selecionando, na plataforma, quais pessoas viveria (direcionadas à direita), bem como as que deveriam morrer (direcionadas à esquerda). Esse poder de vida e morte, executado friamente por estes dois homens, tinha por finalidade separar as pessoas aptas para o trabalho, que ficavam no campo, e os incapazes de trabalhar, que eram imediatamente mortos nas câmaras.

Assim, na próxima semana vamos falar sobre o período em que Victor Capesius passou em Auschwitz e as barbáries que acontecia naquele campo, que no momento presente alguns, absurdamente, querem transformar em obra de ficção!

Newton Teixeira Carvalho
Pós-Doutorado em Docência e Investigação pelo Instituto Universitário Italiano de Rosário (2019). Doutor em Teoria do Estado e Direito Constitucional pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2013), Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (2004). Especialista em Direito de Empresa pela Fundação Dom Cabral (1987), Graduado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (1985). Desembargador da 13ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais. Juiz de Direito da 1ª Vara de Família até junho de 2012. Professor de Direito de Família da Escola Superior Dom Helder Câmara. Autor e coautor de vários livros e artigos na área de família, direito ambiental e processual civil.
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