14 Jan 2021 | domtotal.com

O fracasso é a nossa herança

Sem contar a burocracia, fato é que a qualidade do nosso trabalho deixa muito a desejar

O que dizer das pessoas que lotam praias e feiras populares em tempos de pandemia?
O que dizer das pessoas que lotam praias e feiras populares em tempos de pandemia? (Tomaz Silva/Agência Brasil)

Jorge Fernando dos Santos

Alguém já disse que o Brasil foi descoberto, mas não foi inventado. Na letra quilométrica da canção Fora da ordem, o sempre perspicaz Caetano Veloso define o país com precisão cirúrgica: "Aqui tudo parece que era ainda construção e já é ruína". Em outras palavras, o país não deu certo.

Também pudera! Os índios que habitavam Pindorama combatiam-se uns aos outros na disputa por território, quando aqui desembarcou a esquadra de Pedro Álvares Cabral. Diante da inusitada visita, os habitantes originais pensaram se tratar de deuses e assim receberam os lusitanos cordialmente. Estes, por sua vez, não tinham outro projeto para Vera Cruz, a não ser sugá-la até os ossos.

A primeira riqueza natural de Terra Brasilis a ser extinguida foi justamente a madeira que lhe dera nome. O próprio termo "brasileiros" refere-se aos piratas franceses que contrabandeavam pau-brasil sob as barbas de Portugal. Como todos sabem, "eiro" é sufixo de profissão e não de nacionalidade. Nesse sentido, somos a grande exceção.

Cordialidade aparente

Devido à carência de mão-de-obra, a coroa portuguesa não demorou a escravizar os índios, que viviam da pesca, da caça, das raízes e dos frutos nativos. Em alguns casos, a única tradição de lida na terra era o cultivo da mandioca. Portanto, não estavam habituados ao trabalho duro no campo e tampouco tinham interesse em colaborar com o invasor. Acusados de indolência, não demoraram a sucumbir às doenças e aos massacres perpetrados por bandeirantes e fazendeiros.

Arrastados da África pelo comércio escravagista, os negros que aqui chegaram foram submetidos à mais hedionda ignomínia da História humana. O Brasil seria o último país da América a abolir a escravidão, mesmo assim pressionado pela coroa inglesa, interessada em mão-de-obra remunerada para vender suas mercadorias. Com a abolição, proclamou-se a República, e os ex-escravos foram abandonados à própria sorte, sem terras, trabalho ou educação formal.

Desde o início da colonização, o sonho dos aventureiros portugueses era explorar o Brasil e voltar à pátria com os bolsos cheios de ouro. No entanto, a maioria fracassou e se viu obrigada a permanecer nos trópicos. Até porque todo o ouro armazenado em Portugal foi entregue à Inglaterra, em troca da vã proteção contra as tropas napoleônicas.

Os índios, coitados, nada entendiam do modo de vida do homem branco e acabaram excluídos do processo colonial. Já os negros foram marginalizados após a Lei Áurea, sendo substituídos na roça por imigrantes europeus. E assim, sob o verniz da cordialidade, formamos uma sociedade marcada pela desigualdade e por toda sorte de preconceitos.

Políticos saem do povo

Tudo isso talvez explique a falta de competência notada na maioria dos setores da vida nacional. Sem contar a burocracia, herança maldita da corte portuguesa, fato é que a qualidade do nosso trabalho deixa muito a desejar. Que atire a primeira pedra quem contratou um pedreiro, pintor ou bombeiro sem sofrer na carne a consequência da má formação profissional.

Não podemos justificar essa realidade alegando se tratar de profissões de gente humilde, explorada pelo capital. A falta de competência também atinge setores de formação superior, como o direito, o jornalismo e a medicina. Para ilustrar, lembro do amigo que amputou parte da perna devido a uma trombose. Meses depois, o joelho permanecia inflamado. Uma simples radiografia revelou que o cirurgião havia esquecido um pedaço de gaze no lugar da amputação.

Quando saltamos para a esfera política, a coisa fica ainda mais séria. O que pensar de governantes que se aproveitam da pandemia de Covid-19 para superfaturar a compra de equipamentos hospitalares? O que dizer de um governo federal que sequer consegue comprar agulhas e seringas descartáveis? Isso sem levar em conta a indiferença do presidente diante das mais de 200 mil mortes por Coronavírus, ocorridas desde o início do ano passado.

As possíveis respostas para tais perguntas certamente têm a ver com a nossa índole, forjada ao longo dos tempos. Numa democracia, os políticos saem do povo e por ele são eleitos. Boa parte dos nossos eleitores cumpre a chamada "lei de Gerson", visando levar vantagem em tudo, certo?

O que dizer das pessoas que lotam praias e feiras populares em tempos de pandemia, muitas vezes sem nem mesmo usar máscara? Qual a justificativa para aqueles que saqueiam cargas de caminhões capotados, enquanto o motorista agoniza preso às ferragens? Por tudo isso, não é difícil concluir que o fracasso da colonização portuguesa é a nossa grande herança. Para inventar-se a si mesmo e construir um futuro melhor, o Brasil precisa urgentemente se deitar no divã.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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